A produção industrial da Bahia recuou 8,9% entre abril e maio de 2026, a maior queda entre os 15 locais pesquisados pelo IBGE. O tombo interrompeu quatro meses seguidos de crescimento e veio acompanhado de perdas no refino de petróleo, na celulose e na cadeia de couro e calçados.

O resultado aparece na Pesquisa Industrial Mensal, Produção Física Regional, divulgada pelo IBGE em 10 de julho. Na comparação mensal, os dados são ajustados para retirar efeitos recorrentes do calendário, como feriados, número de dias úteis e oscilações sazonais.
Enquanto a indústria brasileira variou apenas 0,2% para baixo entre abril e maio, a Bahia caiu 8,9%. Mato Grosso e a Região Nordeste, ambos com retração de 3,2%, vieram na sequência. Dos 15 locais analisados nessa comparação, nove apresentaram resultado negativo.
Ceará, com alta de 3,2%, Pernambuco, com 2,4%, e Santa Catarina, com 2,3%, tiveram os maiores avanços. O contraste ajuda a mostrar que a queda baiana não foi apenas reflexo de uma fraqueza nacional. Houve um movimento bem mais intenso dentro da estrutura produtiva do estado.
A indústria da Bahia vinha de quatro meses consecutivos de crescimento e havia acumulado ganho de 13,3% no período. Maio devolveu uma parte expressiva desse avanço de uma vez só.
Na comparação com maio de 2025, sem o ajuste sazonal, a produção baiana recuou 7,1%. Foi o segundo pior resultado entre os 18 locais pesquisados, à frente apenas do Maranhão, que caiu 12,4%. O Brasil, na mesma base, cresceu 0,2%. Maio de 2026 teve 20 dias úteis, um a menos do que maio do ano anterior, fator que também entra na leitura dos números.
O quadro acumulado reforça a preocupação. Entre janeiro e maio, a indústria baiana encolheu 5,1%, terceira maior retração do país. Apenas Rio Grande do Norte, com queda de 15,5%, e Maranhão, com 6,2%, tiveram desempenhos piores. No Brasil, a produção cresceu 1,4% nesse período.
Nos 12 meses encerrados em maio, a Bahia acumulou perda de 2,1%, enquanto o indicador nacional permaneceu positivo em 0,4%.
A queda não ficou espalhada de forma igual por toda a indústria. Ela se concentrou na indústria de transformação, que recuou 7,6% diante de maio de 2025. As indústrias extrativas caminharam na direção oposta e cresceram 2,7%.
Entre as atividades de transformação pesquisadas no estado, sete tiveram redução. O maior peso negativo veio da fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, que caiu 15,4%. Como o refino ocupa posição central na estrutura industrial baiana, uma retração desse tamanho empurra o índice inteiro pra baixo.
A produção de celulose, papel e produtos de papel recuou 19,3%. O segmento de couro, artigos de viagem e calçados teve a maior queda percentual, 22,3%, enquanto máquinas, aparelhos e materiais elétricos diminuíram 22%. A metalurgia caiu 7,5%.
Do outro lado, a fabricação de produtos alimentícios cresceu 9% e ajudou a impedir uma retração ainda maior. Produtos de borracha e material plástico avançaram 4,6%, e minerais não metálicos tiveram alta de 4,1%.
Pra mim, o que mais chama atenção é como uma oscilação aparentemente técnica atravessa o portão da fábrica e chega ao cotidiano sem pedir licença. Menos produção pode significar menos carga para transportar, menos pedidos para fornecedores, menor circulação de serviços e mais cautela na hora de contratar ou investir.
Isso não quer dizer que uma queda mensal provoque automaticamente demissões. Seria precipitado fazer essa ligação direta. O problema aparece quando o recuo deixa de ser pontual e passa a formar uma sequência, especialmente em atividades que sustentam cadeias inteiras de fornecedores, trabalhadores e municípios industriais.
A dimensão social não é pequena. Dados da Rais divulgados pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia apontam que a indústria geral reunia mais de 320 mil vínculos formais no estado ao fim de 2025.
O próprio levantamento do IBGE identifica o refino e a fabricação de celulose como as principais pressões negativas sobre o resultado baiano na comparação anual. Entre os produtos com impacto estão óleo diesel, gasolina, óleos combustíveis e celulose.
A leitura entre empresários, trabalhadores e economistas tende a se concentrar agora na duração da queda. Um único mês pode refletir ajustes de produção, estoques, demanda ou calendário. Quando os indicadores anual e acumulado também ficam negativos, o sinal ganha outra força.
No refino, a retração acumulada entre janeiro e maio chegou a 8,7%. Papel e celulose caíram 5,7%. A cadeia de couro, artigos de viagem e calçados acumulou perda de 24,8%, enquanto máquinas e materiais elétricos recuaram 40,1%. Já a produção de alimentos cresceu 8% no período e as indústrias extrativas avançaram 6,3%.
Esse retrato dividido impede uma explicação preguiçosa. Não existe uma única indústria baiana se movendo na mesma velocidade. Há setores crescendo, outros parados e alguns enfrentando perdas profundas. É uma avenida larga, com faixas seguindo em ritmos completamente diferentes.
A indústria baiana chegou a maio com uma freada brusca depois de quatro meses de avanço. O refino de petróleo puxou a queda, celulose e couro ampliaram as perdas, enquanto alimentos e alguns outros segmentos serviram de amortecedor.
Os próximos resultados mostrarão se maio foi uma curva fechada ou o começo de uma estrada mais difícil. Por enquanto, o alerta está aceso, e número vermelho, quando se repete, deixa de ser detalhe de planilha e começa a bater na porta de casa.















