O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez, nesta terça-feira (22), um dos discursos mais duros de seus mandatos na abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Em sua décima participação na abertura do Debate Geral, Lula afirmou que a ONU vive seu momento mais crítico e cobrou uma reação diante das guerras, da corrida armamentista e da perda de força do multilateralismo.

Segundo o presidente, a incapacidade do Conselho de Segurança de responder aos conflitos compromete a credibilidade das Nações Unidas e deixa as populações mais vulneráveis sem proteção. Lula voltou a criticar o poder de veto das grandes potências e defendeu uma atuação urgente dos líderes que integram o colegiado.
Ao tratar do Oriente Médio, Lula condenou os ataques do Hamas contra civis israelenses e classificou como genocídio as ações do governo de Benjamin Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Também criticou os assentamentos israelenses na Cisjordânia, defendeu a solução de dois Estados e manifestou apoio ao Tribunal Penal Internacional e à relatora especial da ONU Francesca Albanese.
O presidente abordou ainda a guerra entre Rússia e Ucrânia e sustentou que o conflito não terá vencedores no campo de batalha. Para Lula, a diplomacia continua sendo a única saída possível. Ele citou o Grupo de Amigos da Paz, articulado por Brasil e China, como exemplo de iniciativa voltada ao diálogo.

Soberania latino-americana
Na parte dedicada à América Latina e ao Caribe, Lula rejeitou interferências externas e afirmou que o Brasil não aceita ser tratado como área de influência de qualquer potência. O presidente defendeu o direito do povo venezuelano de decidir seu destino, criticou as restrições à oposição na Nicarágua, cobrou atenção internacional para o Haiti e condenou o embargo econômico imposto a Cuba.
Lula também falou sobre o combate ao crime organizado. Disse que o Brasil está preparado para enfrentar facções criminosas, mas rejeitou a presença de forças militares estrangeiras nas águas brasileiras. Segundo ele, o país precisa de cooperação internacional para bloquear o fluxo de armas e o dinheiro usado para financiar organizações criminosas.
O presidente destacou a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, e afirmou que as ações realizadas em 2025 resultaram em apreensões recordes de drogas, bens e recursos ilícitos. Também citou a Lei Antifacção e assegurou que o combate à corrupção continuará alcançando todos os níveis da criminalidade.
Clima, tecnologia e economia
No campo ambiental, Lula afirmou que o Brasil continuará conciliando crescimento econômico e redução de emissões. Ele defendeu a exploração de petróleo e a pesquisa de novas reservas na Margem Equatorial, mas garantiu que o país não abandonará seus compromissos climáticos.
O presidente destacou a queda do desmatamento na Amazônia, o potencial brasileiro em energia limpa e a importância dos minerais críticos e das terras raras para a transição energética. Ressaltou, porém, que a exploração dessas riquezas deverá gerar valor, empregos e transferência de tecnologia dentro do território nacional.
Lula também cobrou regras para as grandes empresas de tecnologia e para a inteligência artificial. Criticou modelos de negócio que transferem às famílias a responsabilidade de enfrentar algoritmos e apontou os impactos sociais das apostas eletrônicas.
O presidente rejeitou ainda qualquer tentativa de privatização do Pix, apresentado por ele como uma infraestrutura pública e gratuita responsável por ampliar a inclusão financeira no país.
Fim da escala 6×1
Ao abordar o mundo do trabalho, Lula voltou a defender o fim da escala 6×1. Para o presidente, os trabalhadores precisam de tempo para descansar, buscar qualificação e conviver com a família. Ele afirmou que a mudança deve assegurar dois dias livres por semana e contribuir para reduzir a sobrecarga doméstica que recai principalmente sobre as mulheres.
Lula também defendeu políticas de distribuição de renda, geração de empregos, valorização salarial e fortalecimento dos serviços públicos. Segundo o presidente, o desenvolvimento depende de escolhas políticas capazes de reduzir desigualdades e colocar a população mais pobre no orçamento.
Eleições e defesa da democracia
Na conclusão do discurso, Lula mencionou as eleições brasileiras de 4 de outubro e afirmou que o país terá um pleito transparente e competitivo. Alertou para a atuação de redes de desinformação e para a possível associação de grupos políticos a interesses estrangeiros.
O presidente manifestou confiança no sistema eleitoral e ressaltou o papel da cidadania e da imprensa livre na fiscalização do processo. Ao encerrar, afirmou que a democracia brasileira pertence aos brasileiros e que o país continuará soberano.
















