
O Brasil passou por mudanças importantes entre 2003 e 2023. A ampliação do acesso à universidade, as políticas de transferência de renda e o reconhecimento de direitos fazem parte desse histórico. Os governos de esquerda tiveram papel relevante nessas transformações, mas também acumularam erros econômicos, escândalos de corrupção e dificuldades para enfrentar desigualdades profundas.
Antes de avaliar esse período, é necessário acertar a conta. Não foram 20 anos contínuos de esquerda no poder. Lula e Dilma Rousseff governaram de 2003 até agosto de 2016. Depois vieram Michel Temer e Jair Bolsonaro. Lula retornou à Presidência em 2023. Além disso, conquistas aprovadas pelo Congresso ou determinadas pelo Judiciário não pertencem exclusivamente a um partido.
Um dos avanços mais claros ocorreu na educação. A obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira, estabelecida em 2003, e a criação do ProUni ampliaram instrumentos de inclusão. A Lei de Cotas, de 2012, atualizada em 2023, combinou critérios de escola pública, renda e pertencimento racial para o acesso às instituições federais.
O resultado aparece no perfil dos estudantes. Em 2018, pretos e pardos representavam 50,3% dos estudantes do ensino superior público, segundo o IBGE. Foi uma mudança expressiva, embora ainda abaixo da participação desse grupo na população, de 55,8%. O indicador mostra maior inclusão, mas não permite atribuir toda a transformação a uma única política ou governo.
No combate à pobreza, os percentuais também ajudam a dimensionar os resultados. Segundo a divulgação do IBGE sobre 2023, a proporção de pessoas em situação de pobreza caiu de 31,6% em 2022 para 27,4% em 2023. Foram 4,2 pontos percentuais de redução, equivalentes a uma queda relativa de aproximadamente 13,3%. A extrema pobreza passou de 5,9% para 4,4%, redução relativa de cerca de 25,4%. Esses números medem mudanças nas condições de vida, não uma “taxa de acertos” do governo.
A transferência de renda tem peso concreto nesse resultado. O IBGE estimou que, sem os benefícios dos programas sociais, a extrema pobreza em 2023 alcançaria 11,2%, em vez de 4,4%. É uma simulação que evidencia a importância da proteção social, embora não substitua a necessidade de emprego, renda e serviços públicos de qualidade.
Na memória e nos direitos humanos, a instalação da Comissão Nacional da Verdade, em 2012, representou um avanço na investigação das violações cometidas durante a ditadura. É preciso, porém, distinguir as origens das instituições. A Comissão de Anistia foi criada em 2001, antes dos governos petistas. Da mesma forma, o enquadramento da homofobia e da transfobia como crimes de racismo, em 2019, foi uma decisão do STF.
O balanço dos erros exige a mesma seriedade. O mensalão expôs práticas de corrupção no período petista e resultou em condenações pelo Supremo. Uma agenda de inclusão social não elimina a responsabilidade por desvios nem dispensa transparência na relação entre governo, partidos e interesses privados.
Na economia, a recessão mostrou a fragilidade dos ganhos sociais diante de uma crise prolongada. O PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, segundo os dados revisados do IBGE. A crise começou sob Dilma e atravessou a mudança de governo. Esses resultados precisam entrar na avaliação da esquerda, sem reduzir uma crise com diferentes fatores a uma explicação única.
Também houve distância entre inclusão e igualdade. A maior presença de estudantes negros no ensino superior público foi uma conquista, mas a própria pesquisa do IBGE mostrou que a desigualdade racial permanecia. Abrir a porta da universidade é fundamental. Garantir permanência, formação e oportunidades depois do diploma continua sendo um desafio.
A experiência posterior mostrou ainda que direitos podem perder efetividade sem que uma lei seja revogada. Entre 2019 e 2022, nenhuma terra indígena foi homologada pela Presidência. A legislação continuava existindo, mas a etapa presidencial dos processos ficou paralisada. Isso demonstra como decisões administrativas podem enfraquecer a aplicação de uma garantia constitucional.
A avaliação mais defensável é que os governos de esquerda tiveram avanços importantes na inclusão educacional e na proteção da renda, acompanhados de falhas graves na integridade política e na gestão econômica. Não existe fundamento para transformar esse histórico em “70% de acertos” ou qualquer outra nota fechada.
Os percentuais úteis são os que mostram resultados reais. Mais acesso à educação e menos pobreza representam conquistas. Corrupção, recessão e desigualdades persistentes exigem cobrança. Reconhecer os avanços não obriga ninguém a esconder os erros, e apontar os erros não apaga a vida de quem passou a estudar ou encontrou proteção para sobreviver.
















