Produção recorde de leite e preços em queda pressionam setor em 2026

Produção recorde de leite e preços em queda marcam 2026. Entenda os impactos do Acordo Mercosul-União Europeia e o que esperar para produtores e consumidores.

Por Murillo Vazquez
18/02/2026

Publicado em - -

NOTICIA OXAROPE 180226001govenofederal

Nos últimos meses, o setor leiteiro brasileiro vive um paradoxo: produção recorde e renda pressionada. Em 2025, a oferta cresceu 7,2%, enquanto o preço ao produtor caiu 22,6%, cenário que chega a 2026 sob novas expectativas com o Acordo Mercosul-União Europeia.

Dados do Centro de Inteligência do Leite da Embrapa apontam que 2025 registrou crescimento de 7,2% na produção nacional em comparação a 2024. Ao mesmo tempo, mesmo com recuo de 4,2% nas importações, o Brasil fechou o ano com déficit de aproximadamente 2 bilhões de litros equivalentes na balança comercial, tendo o leite em pó como principal item importado.

O excesso de oferta pressionou os preços pagos ao produtor. Em dezembro de 2025, o valor médio chegou a R$ 1,99 por litro, queda de 22,6% em relação aos 12 meses anteriores. Já o consumidor sentiu impacto menor: a cesta de lácteos recuou 3,62%.

No cenário internacional, a oferta segue elevada, impulsionada por altas de 7% na Argentina e 8% no Uruguai ao longo de 2025. Ainda assim, especialistas projetam crescimento global mais moderado em 2026, diante de margens apertadas e incertezas geopolíticas.

Segundo o pesquisador Samuel Oliveira, da Embrapa Gado de Leite, os recentes movimentos de alta na Global Dairy Trade devem ser interpretados como ajustes pontuais, não como reversão estrutural de tendência.

Para o produtor, o curto prazo continua desafiador. O valor médio caiu para cerca de US$ 0,36 por quilo, reflexo da elevada oferta e da concorrência externa.

Por outro lado, há sinais de ajuste. O mercado spot começou a reagir, indicando possível recuperação gradual. A valorização recente do real, porém, pode tornar o produto importado mais competitivo, fator que exige atenção.

A recuperação dos preços de bezerras e da arroba do boi surge como alívio parcial, gerando renda adicional com venda de animais e descarte de vacas. A aproximação da entressafra também tende a sustentar leve viés de alta.

Para mim, o que mais chama atenção é como decisões técnicas e movimentos globais afetam diretamente quem acorda antes do sol para ordenhar. O produtor sente primeiro; o consumidor percebe depois.

Glauco Carvalho, também pesquisador da Embrapa Gado de Leite, aponta uma mudança estrutural no setor, com maior concentração da produção em grandes fazendas tecnificadas. Segundo ele, essas propriedades conseguem reagir melhor às oscilações de mercado.

Em 2025, o Índice de Custo de Produção de Leite subiu 3%, abaixo da inflação oficial de 4,3%. Isso criou um amortecimento parcial das perdas, especialmente no primeiro semestre, quando as margens foram mais favoráveis.

Ainda assim, o último trimestre do ano foi mais duro. O Brasil produziu mais leite do que o mercado interno conseguiu absorver. O consumo cresceu menos de 2%, muito abaixo da expansão da oferta.

O país tem cerca de 513 mil produtores espalhados de forma heterogênea. Regiões altamente produtivas, como Castro, no Paraná, já alcançam níveis de eficiência comparáveis ou superiores aos da Argentina. O desafio é reduzir a desigualdade tecnológica entre os sistemas de produção.

Acordo Mercosul-União Europeia e novas expectativas

A aprovação do Mercosul e União Europeia em janeiro de 2026 inaugura nova fase nas relações comerciais. O acordo prevê eliminação gradual de tarifas sobre mais de 90% dos produtos, embora ainda dependa de ratificação.

No setor lácteo, o impacto imediato tende a ser limitado. As cotas de isenção para leite em pó e queijos são modestas. A muçarela ficou fora do acordo. Já a manteiga terá redução tarifária inicial de 30%.

Para Carvalho, o acordo pode funcionar como selo de qualidade. Ao atender padrões sanitários europeus, o Brasil amplia portas para mercados mais exigentes.

O Parlamento Europeu encaminhou o texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia, o que pode atrasar a implementação por mais de um ano. Ainda assim, partes do acordo podem entrar em vigor provisoriamente.

Se 2026 pode ser o ano da virada, isso dependerá menos de discursos e mais de planejamento estratégico, ganho de produtividade e agregação de valor. O Brasil tem potencial. O desafio é transformar volume em competitividade.

A produção recorde de 2025 deixou como herança preços pressionados e margens apertadas. Para 2026, o cenário aponta ajuste gradual, com possível recuperação moderada, mas ainda sob forte influência do mercado internacional e do novo acordo comercial.

O futuro do leite brasileiro passa por tecnologia, gestão e abertura estratégica de mercados.

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Produção recorde de leite e preços em queda pressionam setor em 2026

Produção recorde de leite e preços em queda marcam 2026. Entenda os impactos do Acordo Mercosul-União Europeia e o que esperar para produtores e consumidores.

Por Murillo Vazquez
18/02/2026 - 11h54 - Atualizado 21 de fevereiro de 2026

Publicado em - -

NOTICIA OXAROPE 180226001govenofederal

Nos últimos meses, o setor leiteiro brasileiro vive um paradoxo: produção recorde e renda pressionada. Em 2025, a oferta cresceu 7,2%, enquanto o preço ao produtor caiu 22,6%, cenário que chega a 2026 sob novas expectativas com o Acordo Mercosul-União Europeia.

Dados do Centro de Inteligência do Leite da Embrapa apontam que 2025 registrou crescimento de 7,2% na produção nacional em comparação a 2024. Ao mesmo tempo, mesmo com recuo de 4,2% nas importações, o Brasil fechou o ano com déficit de aproximadamente 2 bilhões de litros equivalentes na balança comercial, tendo o leite em pó como principal item importado.

O excesso de oferta pressionou os preços pagos ao produtor. Em dezembro de 2025, o valor médio chegou a R$ 1,99 por litro, queda de 22,6% em relação aos 12 meses anteriores. Já o consumidor sentiu impacto menor: a cesta de lácteos recuou 3,62%.

No cenário internacional, a oferta segue elevada, impulsionada por altas de 7% na Argentina e 8% no Uruguai ao longo de 2025. Ainda assim, especialistas projetam crescimento global mais moderado em 2026, diante de margens apertadas e incertezas geopolíticas.

Segundo o pesquisador Samuel Oliveira, da Embrapa Gado de Leite, os recentes movimentos de alta na Global Dairy Trade devem ser interpretados como ajustes pontuais, não como reversão estrutural de tendência.

Para o produtor, o curto prazo continua desafiador. O valor médio caiu para cerca de US$ 0,36 por quilo, reflexo da elevada oferta e da concorrência externa.

Por outro lado, há sinais de ajuste. O mercado spot começou a reagir, indicando possível recuperação gradual. A valorização recente do real, porém, pode tornar o produto importado mais competitivo, fator que exige atenção.

A recuperação dos preços de bezerras e da arroba do boi surge como alívio parcial, gerando renda adicional com venda de animais e descarte de vacas. A aproximação da entressafra também tende a sustentar leve viés de alta.

Para mim, o que mais chama atenção é como decisões técnicas e movimentos globais afetam diretamente quem acorda antes do sol para ordenhar. O produtor sente primeiro; o consumidor percebe depois.

Glauco Carvalho, também pesquisador da Embrapa Gado de Leite, aponta uma mudança estrutural no setor, com maior concentração da produção em grandes fazendas tecnificadas. Segundo ele, essas propriedades conseguem reagir melhor às oscilações de mercado.

Em 2025, o Índice de Custo de Produção de Leite subiu 3%, abaixo da inflação oficial de 4,3%. Isso criou um amortecimento parcial das perdas, especialmente no primeiro semestre, quando as margens foram mais favoráveis.

Ainda assim, o último trimestre do ano foi mais duro. O Brasil produziu mais leite do que o mercado interno conseguiu absorver. O consumo cresceu menos de 2%, muito abaixo da expansão da oferta.

O país tem cerca de 513 mil produtores espalhados de forma heterogênea. Regiões altamente produtivas, como Castro, no Paraná, já alcançam níveis de eficiência comparáveis ou superiores aos da Argentina. O desafio é reduzir a desigualdade tecnológica entre os sistemas de produção.

Acordo Mercosul-União Europeia e novas expectativas

A aprovação do Mercosul e União Europeia em janeiro de 2026 inaugura nova fase nas relações comerciais. O acordo prevê eliminação gradual de tarifas sobre mais de 90% dos produtos, embora ainda dependa de ratificação.

No setor lácteo, o impacto imediato tende a ser limitado. As cotas de isenção para leite em pó e queijos são modestas. A muçarela ficou fora do acordo. Já a manteiga terá redução tarifária inicial de 30%.

Para Carvalho, o acordo pode funcionar como selo de qualidade. Ao atender padrões sanitários europeus, o Brasil amplia portas para mercados mais exigentes.

O Parlamento Europeu encaminhou o texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia, o que pode atrasar a implementação por mais de um ano. Ainda assim, partes do acordo podem entrar em vigor provisoriamente.

Se 2026 pode ser o ano da virada, isso dependerá menos de discursos e mais de planejamento estratégico, ganho de produtividade e agregação de valor. O Brasil tem potencial. O desafio é transformar volume em competitividade.

A produção recorde de 2025 deixou como herança preços pressionados e margens apertadas. Para 2026, o cenário aponta ajuste gradual, com possível recuperação moderada, mas ainda sob forte influência do mercado internacional e do novo acordo comercial.

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