
Nos últimos dias, a escala 6×1 voltou ao centro das discussões nacionais após uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada indicar que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais pode ser absorvida pelo mercado. O estudo, divulgado em 10 de fevereiro, analisa impactos econômicos e sociais da mudança. A principal pergunta é: o Brasil está preparado para essa transformação?
A nota técnica foi elaborada com base nos microdados da Relação Anual de Informações Sociais de 2023 e assinada pelos pesquisadores Felipe Pateo e Joana Melo, além da bolsista Juliane Círiaco.
Atualmente, 31.779.457 trabalhadores, o equivalente a 74% dos vínculos com jornada informada, cumprem 44 horas semanais. Em 31 dos 87 setores analisados, mais de 90% dos empregados trabalham acima de 40 horas por semana.
O estudo considera que a redução da jornada, mantendo o salário nominal, representa aumento no custo da hora trabalhada. A estimativa aponta elevação média de 7,84% no custo do trabalho celetista no caso de redução para 40 horas semanais.
No entanto, quando esse aumento é ponderado pelo peso da mão de obra no custo total das empresas, o impacto final tende a ser reduzido. Em grandes setores como indústria e comércio, onde estão mais de 13 milhões de trabalhadores, o efeito estimado é inferior a 1% do custo operacional total.
A discussão vai além das planilhas contábeis. Para os trabalhadores submetidos à escala 6×1, a mudança pode significar mais tempo de descanso, convivência familiar e cuidado com a saúde.
Para mim, o que mais chama atenção é como decisões técnicas afetam a vida real das pessoas. Não se trata apenas de números, mas de qualidade de vida.
O estudo destaca que setores intensivos em mão de obra, como vigilância, segurança e serviços de limpeza, podem sentir impacto maior. No setor de vigilância, por exemplo, o custo operacional poderia subir até 6,6%.
Ainda assim, os pesquisadores lembram que o Brasil já enfrentou aumentos expressivos no custo do trabalho, como reajustes reais do salário mínimo de 12% em 2001, 7,6% em 2012 e 5,6% em 2024, sem efeitos negativos duradouros sobre o emprego. A própria redução da jornada prevista na Constituição de 1988 também não gerou queda no nível de ocupação.
Segundo Felipe Pateo, a limitação da carga horária pode ser interpretada como aumento do custo da hora de trabalho. Porém, a reação empresarial não se limita à redução de produção.
Os empregadores podem investir em produtividade ou contratar mais trabalhadores para compensar a redução individual de horas. Dados das pesquisas setoriais do IBGE mostram que, em muitos setores, o trabalho representa parcela relativamente pequena do custo operacional total.
Outro ponto relevante é o porte das empresas. Nas empresas com até quatro empregados, 87,7% dos trabalhadores cumprem jornadas superiores a 40 horas. Já nas empresas com até nove empregados, o percentual chega a 88,6%. Isso indica que pequenos negócios podem enfrentar maior desafio na reorganização das escalas.
Enquanto Brasília discute impacto no PIB, nas cidades quem sente o peso da escala 6×1 é o trabalhador que sai de casa cedo e retorna tarde, seis dias por semana.
Os dados mostram que jornadas de 44 horas concentram trabalhadores de menor renda e escolaridade. A remuneração média mensal de quem trabalha 40 horas é de R$ 6.211. Já os que cumprem 44 horas recebem, em média, apenas 42,3% desse valor. A desigualdade também aparece no salário por hora, que corresponde a 38,5% do valor pago em contratos de 40 horas.
Mais de 83% dos vínculos de trabalhadores com até o ensino médio completo estão na jornada de 44 horas. Entre aqueles com ensino superior, a proporção cai para 53%. A jornada estendida está fortemente associada a ocupações de menor remuneração e maior rotatividade.
Não é apenas uma discussão econômica. É também social. Reduzir a jornada pode significar enfrentar desigualdades históricas do mercado formal brasileiro.
A análise do Ipea indica que a redução da jornada para 40 horas semanais não provocaria um choque insustentável na economia, especialmente nos grandes setores. Ao mesmo tempo, aponta possíveis ganhos sociais, sobretudo na redução de desigualdades.
A escala 6×1, que por anos foi tratada como regra inquestionável, agora entra em debate com base em dados concretos. A decisão final dependerá de articulação política e diálogo entre governo, empresários e trabalhadores.
A pergunta que fica é: estamos prontos para repensar o tempo de trabalho no Brasil?
















