Eunápolis no ranking da violência entenda o cálculo

Eunápolis teve a segunda maior taxa de mortes violentas do Brasil em 2025. Entenda o cálculo e os fatores por trás da classificação.

Por Murillo Vazquez
23/07/2026

Publicado em - -

Noticia_oXarope_segurancapublica_1220726_4

Eunápolis apareceu no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 com a segunda maior taxa de mortes violentas intencionais do país entre cidades com mais de 100 mil habitantes. A posição chama atenção, assusta e exige uma explicação sem atalhos: o ranking compara taxas proporcionais, não apenas o número bruto de crimes.

O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública coloca Eunápolis em segundo lugar no ranking nacional de 2025, com 85,1 mortes violentas intencionais para cada grupo de 100 mil habitantes. A cidade ficou atrás somente de Maranguape, no Ceará, que registrou taxa de 100,3.

No recorte usado pelo Anuário, ela aparece como a segunda do Brasil e a primeira entre as cidades baianas. Porto Seguro, também no extremo sul, ocupa o quarto lugar nacional, com taxa de 71,2.

O estudo considera apenas municípios com população igual ou superior a 100 mil habitantes. Esse corte tenta evitar distorções comuns em cidades muito pequenas, onde poucos casos podem provocar uma explosão estatística na taxa.

A expressão “cidade mais violenta” também precisa ser lida com cuidado. O ranking não reúne todos os crimes registrados no município. Ele mede especificamente as chamadas Mortes Violentas Intencionais, conhecidas pela sigla MVI.

Entram nessa conta: homicídios dolosos, incluindo feminicídios; latrocínios, quando há morte durante um roubo; lesões corporais seguidas de morte; e mortes decorrentes de intervenções policiais.

Roubos sem morte, furtos, agressões, estupros, ameaças, violência doméstica, desaparecimentos e estelionatos não entram nesse cálculo específico. Por isso, o ranking mede a violência letal, não toda a criminalidade de uma cidade.

O cálculo é feito a partir de uma fórmula simples:

Taxa de MVI = número de vítimas ÷ população do município × 100 mil

O uso da taxa permite comparar cidades de tamanhos diferentes. Um município maior pode registrar mais mortes em números absolutos e, mesmo assim, apresentar uma taxa menor. Já uma cidade com população menor pode ter menos vítimas, mas sofrer um impacto proporcional muito mais pesado.

Segundo o quadro municipal do Anuário, Eunápolis registrou 103 mortes violentas intencionais em 2025. Quando esse total é dividido pela população considerada no levantamento e multiplicado por 100 mil, chega-se à taxa de 85,1.

Na prática, isso não significa que 85 pessoas morreram entre exatamente 100 mil moradores. A taxa é uma medida estatística usada para padronizar a comparação. Ela mostra o peso proporcional das mortes violentas dentro da população.

Pra mim, o que mais chama atenção é como uma fórmula aparentemente fria revela um problema que passa longe de ser abstrato. Por trás de cada ponto dessa taxa há uma família, uma rua, um bairro e uma rotina interrompida.

A distância para as médias estadual e nacional ajuda a dimensionar o cenário. O Brasil encerrou 2025 com taxa de 19,1 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. A Bahia registrou 36,8. Eunápolis chegou a 85,1, mais de quatro vezes a taxa brasileira e mais que o dobro da baiana.

Um dos elementos que mais pesaram na posição de Eunápolis foi a letalidade policial. Das 103 mortes violentas intencionais registradas, 36 foram decorrentes de intervenções policiais.

Isso representa aproximadamente 35% de todas as mortes contabilizadas no indicador municipal. Como esse tipo de ocorrência faz parte da metodologia das MVI, ele aumenta diretamente a taxa e influencia a posição da cidade no ranking.

O Anuário aponta Eunápolis entre os municípios brasileiros com maiores taxas de mortes decorrentes de ações policiais. A taxa local desse indicador chegou a 29,7 por 100 mil habitantes.

Não é correto, portanto, atribuir a classificação apenas aos homicídios praticados por criminosos. O resultado reúne diferentes formas de violência letal intencional, inclusive a produzida em operações e confrontos com forças de segurança.

O estudo também relaciona o quadro local às disputas entre grupos criminosos e à posição estratégica de Eunápolis no extremo sul da Bahia. O município é cortado pelas rodovias BR-101 e BR-367, corredores que ligam diferentes cidades da região e facilitam a circulação de pessoas, mercadorias e atividades ilegais.

Esses fatores ajudam a interpretar o cenário, mas não entram diretamente na fórmula. Rodovias, facções e conflitos territoriais não acrescentam pontos ao ranking. O que define a colocação é o número de vítimas em relação ao tamanho da população.

O ranking produz impacto porque transforma uma crise complexa em uma posição fácil de entender: segundo lugar. Só que número sem contexto pode virar manchete barulhenta e explicação rasa.

Eunápolis não recebeu essa classificação porque teria liderado todos os tipos de crime. Também não foi comparada com os 5.570 municípios brasileiros. O recorte considera cidades com ao menos 100 mil habitantes e utiliza apenas a taxa de mortes violentas intencionais.

Mesmo com essas ressalvas, o resultado é grave. Uma taxa de 85,1 não nasce de um pequeno desvio estatístico. Ela revela uma concentração elevada de mortes numa cidade de porte médio, situação que se torna ainda mais preocupante quando mais de um terço dos casos está ligado a intervenções policiais.

O dado também mostra como a violência assume características regionais. Eunápolis e Porto Seguro aparecem entre as primeiras colocadas do país, enquanto outros municípios baianos, como Simões Filho, Jequié e Juazeiro, também integram a lista das dez maiores taxas.

No chão da cidade, isso aparece na conversa interrompida quando uma moto passa devagar, na família que evita determinada rua à noite, no comércio que fecha mais cedo e no morador que aprende a mudar o caminho de casa. A estatística chega depois. O medo costuma chegar primeiro.

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Eunápolis no ranking da violência entenda o cálculo

Eunápolis teve a segunda maior taxa de mortes violentas do Brasil em 2025. Entenda o cálculo e os fatores por trás da classificação.

Por Murillo Vazquez
23/07/2026 - 08h00 - Atualizado 24 de julho de 2026

Publicado em - -

Noticia_oXarope_segurancapublica_1220726_4

Eunápolis apareceu no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 com a segunda maior taxa de mortes violentas intencionais do país entre cidades com mais de 100 mil habitantes. A posição chama atenção, assusta e exige uma explicação sem atalhos: o ranking compara taxas proporcionais, não apenas o número bruto de crimes.

O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública coloca Eunápolis em segundo lugar no ranking nacional de 2025, com 85,1 mortes violentas intencionais para cada grupo de 100 mil habitantes. A cidade ficou atrás somente de Maranguape, no Ceará, que registrou taxa de 100,3.

No recorte usado pelo Anuário, ela aparece como a segunda do Brasil e a primeira entre as cidades baianas. Porto Seguro, também no extremo sul, ocupa o quarto lugar nacional, com taxa de 71,2.

O estudo considera apenas municípios com população igual ou superior a 100 mil habitantes. Esse corte tenta evitar distorções comuns em cidades muito pequenas, onde poucos casos podem provocar uma explosão estatística na taxa.

A expressão “cidade mais violenta” também precisa ser lida com cuidado. O ranking não reúne todos os crimes registrados no município. Ele mede especificamente as chamadas Mortes Violentas Intencionais, conhecidas pela sigla MVI.

Entram nessa conta: homicídios dolosos, incluindo feminicídios; latrocínios, quando há morte durante um roubo; lesões corporais seguidas de morte; e mortes decorrentes de intervenções policiais.

Roubos sem morte, furtos, agressões, estupros, ameaças, violência doméstica, desaparecimentos e estelionatos não entram nesse cálculo específico. Por isso, o ranking mede a violência letal, não toda a criminalidade de uma cidade.

O cálculo é feito a partir de uma fórmula simples:

Taxa de MVI = número de vítimas ÷ população do município × 100 mil

O uso da taxa permite comparar cidades de tamanhos diferentes. Um município maior pode registrar mais mortes em números absolutos e, mesmo assim, apresentar uma taxa menor. Já uma cidade com população menor pode ter menos vítimas, mas sofrer um impacto proporcional muito mais pesado.

Segundo o quadro municipal do Anuário, Eunápolis registrou 103 mortes violentas intencionais em 2025. Quando esse total é dividido pela população considerada no levantamento e multiplicado por 100 mil, chega-se à taxa de 85,1.

Na prática, isso não significa que 85 pessoas morreram entre exatamente 100 mil moradores. A taxa é uma medida estatística usada para padronizar a comparação. Ela mostra o peso proporcional das mortes violentas dentro da população.

Pra mim, o que mais chama atenção é como uma fórmula aparentemente fria revela um problema que passa longe de ser abstrato. Por trás de cada ponto dessa taxa há uma família, uma rua, um bairro e uma rotina interrompida.

A distância para as médias estadual e nacional ajuda a dimensionar o cenário. O Brasil encerrou 2025 com taxa de 19,1 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. A Bahia registrou 36,8. Eunápolis chegou a 85,1, mais de quatro vezes a taxa brasileira e mais que o dobro da baiana.

Um dos elementos que mais pesaram na posição de Eunápolis foi a letalidade policial. Das 103 mortes violentas intencionais registradas, 36 foram decorrentes de intervenções policiais.

Isso representa aproximadamente 35% de todas as mortes contabilizadas no indicador municipal. Como esse tipo de ocorrência faz parte da metodologia das MVI, ele aumenta diretamente a taxa e influencia a posição da cidade no ranking.

O Anuário aponta Eunápolis entre os municípios brasileiros com maiores taxas de mortes decorrentes de ações policiais. A taxa local desse indicador chegou a 29,7 por 100 mil habitantes.

Não é correto, portanto, atribuir a classificação apenas aos homicídios praticados por criminosos. O resultado reúne diferentes formas de violência letal intencional, inclusive a produzida em operações e confrontos com forças de segurança.

O estudo também relaciona o quadro local às disputas entre grupos criminosos e à posição estratégica de Eunápolis no extremo sul da Bahia. O município é cortado pelas rodovias BR-101 e BR-367, corredores que ligam diferentes cidades da região e facilitam a circulação de pessoas, mercadorias e atividades ilegais.

Esses fatores ajudam a interpretar o cenário, mas não entram diretamente na fórmula. Rodovias, facções e conflitos territoriais não acrescentam pontos ao ranking. O que define a colocação é o número de vítimas em relação ao tamanho da população.

O ranking produz impacto porque transforma uma crise complexa em uma posição fácil de entender: segundo lugar. Só que número sem contexto pode virar manchete barulhenta e explicação rasa.

Eunápolis não recebeu essa classificação porque teria liderado todos os tipos de crime. Também não foi comparada com os 5.570 municípios brasileiros. O recorte considera cidades com ao menos 100 mil habitantes e utiliza apenas a taxa de mortes violentas intencionais.

Mesmo com essas ressalvas, o resultado é grave. Uma taxa de 85,1 não nasce de um pequeno desvio estatístico. Ela revela uma concentração elevada de mortes numa cidade de porte médio, situação que se torna ainda mais preocupante quando mais de um terço dos casos está ligado a intervenções policiais.

O dado também mostra como a violência assume características regionais. Eunápolis e Porto Seguro aparecem entre as primeiras colocadas do país, enquanto outros municípios baianos, como Simões Filho, Jequié e Juazeiro, também integram a lista das dez maiores taxas.

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