A Polícia Federal encontrou mensagens indicando que Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, enviou a Marcola uma minuta de contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. Segundo reportagens publicadas por UOL e Folha de S.Paulo, o documento tratava de uma possível contratação sem licitação, mas as investidas junto ao ministério não prosperaram.

Roberta aparece nas apurações por sua relação com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. De acordo com a investigação citada pelos veículos, ela teria recebido R$ 1,5 milhão, em cinco parcelas de R$ 300 mil, para atuar na tentativa de viabilizar o negócio de canabidiol junto ao governo federal.
Marcola confirmou a interlocutores que recebeu o modelo de contrato, mas afirmou não ter encaminhado o material a ninguém do governo. Pessoas próximas ao ex-chefe de gabinete disseram que ele considerou o envio “inadequado” e negou qualquer favorecimento.
Outro ponto que entrou no radar da PF envolve repasses e despesas atribuídas a Roberta em favor de Marcola. Segundo a Folha, a defesa dele afirma que os valores fazem parte de um empréstimo de R$ 249 mil, posteriormente quitado. A investigação também aponta a compra de joias de diamantes por Roberta, supostamente a pedido de Marcola, como presente para o Dia das Mães de 2024.
Lulinha é investigado em inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal sob suspeita de tráfico de influência. A apuração busca esclarecer se a proximidade dele com pessoas ligadas ao governo teria sido usada para favorecer interesses privados. Até aqui, não há denúncia criminal recebida contra ele nesse caso.
A defesa de Fábio Luís nega tráfico de influência e sustenta que ele não participou das negociações. Em relação à viagem a Portugal em 2024, paga pelo Careca do INSS, os advogados afirmaram que Lulinha teria ido apenas para conhecer a produção de medicamentos à base de canabidiol, sem compromisso comercial, sem investimento e sem participação societária.
O ponto central, neste momento, não é apenas saber quem conhecia quem. Em Brasília, relações pessoais são muitas vezes o primeiro corredor antes da sala oficial. O que a PF tenta entender é se essa rede de proximidade saiu do campo das conversas e chegou a produzir algum ato concreto dentro da administração pública.
Para caracterizar crime como tráfico de influência ou corrupção, não basta haver amizade, mensagens constrangedoras ou tentativa de aproximação com autoridades. É preciso demonstrar uma ligação entre a conduta investigada e um resultado buscado ou obtido dentro do governo. Em linguagem mais simples, a pergunta é alguém usou influência real ou vendida como real para obter vantagem indevida?
No debate jurídico, especialistas têm tratado o caso com cautela. Em entrevista ao programa da CNN, o professor Gustavo Sampaio, de Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense, afirmou que a situação de Lulinha pode ser considerada mais complicada politicamente, mas que ainda não haveria, até este momento, elementos suficientes para cravar a existência de crime.
Segundo ele, as investigações precisam aprofundar a busca pelo chamado nexo de causalidade, isto é, a conexão entre uma ação ou omissão e um resultado capaz de configurar infração penal. Em outras palavras, a PF precisa demonstrar se houve uma cadeia de fatos consistente, e não apenas proximidade entre os investigados.
Sampaio também chamou atenção para a diferença entre relevância política, social e penal. Um comportamento pode ser malvisto, inconveniente ou administrativamente problemático sem necessariamente preencher todos os requisitos de um crime. O direito penal, como lembrou o professor, exige prova robusta, porque é a área mais dura da repressão estatal.
A defesa de Lulinha tem reclamado do vazamento gradual de informações do inquérito, especialmente em ano eleitoral. Os advogados falam em risco de nulidade e questionam a forma como detalhes sigilosos chegam ao noticiário. Esse ponto também precisa ser observado com cuidado: uma investigação pode avançar com provas válidas, mas também pode ser contestada se houver falhas na preservação, no acesso ou na cadeia de custódia do material.
Ao mesmo tempo, o fato de haver sigilo judicial não apaga o interesse público. Quando a apuração envolve o filho de um presidente da República, um ex-chefe de gabinete do Planalto, uma lobista e uma proposta de contrato com o Ministério da Saúde, a sociedade tem motivo legítimo para acompanhar. O desafio é separar fiscalização jornalística de condenação antecipada.
As novas mensagens aumentam a pressão sobre Lulinha, Marcola e Roberta Luchsinger, mas ainda não fecham o quebra-cabeça jurídico. O caso está numa fase em que cada detalhe importa: quem recebeu, quem encaminhou, quem pagou, quem pediu, quem prometeu e, principalmente, se algum ato do governo foi influenciado por essas relações.
















