O presidente Lula reagiu, nesta terça-feira, em Catalão, Goiás, à proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Em tom crítico, ele disse esperar que a medida não entre em vigor e afirmou que Trump deveria conhecer melhor o Pix antes de temê-lo.

Durante cerimônia de inauguração do Hospital Universitário da Universidade Federal de Catalão, Lula classificou a decisão norte-americana como intempestiva e cobrou uma explicação direta de Donald Trump. Segundo o presidente brasileiro, os dois governos haviam combinado um prazo de 30 dias para negociação, com ministros dos dois países envolvidos nas tratativas.
A proposta dos Estados Unidos prevê uma tarifa punitiva de 25% sobre parte das importações brasileiras. O governo norte-americano alega práticas comerciais consideradas desleais em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
A medida ainda passa por etapas internas. O USTR, órgão comercial dos Estados Unidos, abriu prazo para comentários públicos até 1º de julho e marcou audiência para 6 de julho. A tarifa pode entrar em vigor em 15 de julho, caso avance.
O embate vai além da diplomacia. A tarifa pode afetar setores produtivos brasileiros, pressionar exportadores e criar ruído em cadeias que dependem do mercado norte-americano. Alguns produtos, como carne bovina, café, terras raras, outros metais e peças de aeronaves, foram listados como exceções pela Agência Brasil.
No centro da disputa aparece o Pix, sistema que virou parte da rotina do brasileiro. Segundo o Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas usam o Pix, e o sistema registrou mais de 7 bilhões de transações em janeiro de 2026. Para pessoas físicas, em regra, não há cobrança para enviar ou receber Pix, embora existam exceções previstas pelo próprio Banco Central.
O ponto sensível é claro: o Pix mexeu no bolso do consumidor e no modelo de negócio de empresas tradicionais de pagamento. Quando uma tecnologia pública, rápida e barata ganha essa escala, ela deixa de ser apenas uma ferramenta bancária e passa a ser assunto de soberania econômica.
Lula exibiu um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil” e afirmou que os Estados Unidos demonstram receio da concorrência do sistema brasileiro com as empresas de cartão de crédito. Em sua fala, o presidente sugeriu que Trump deveria testar o Pix em vez de tratá-lo como ameaça.
O governo brasileiro também sustenta que as acusações dos Estados Unidos não se justificam. Em resposta anterior ao USTR, o Brasil afirmou que o Pix não discrimina empresas estrangeiras e que o sistema é administrado pelo Banco Central com foco em segurança e neutralidade.
Do lado norte-americano, o USTR diz que determinadas práticas brasileiras seriam “irrazoáveis” ou discriminatórias e poderiam restringir o comércio dos Estados Unidos. A Associated Press também registrou que os EUA mantêm superávit comercial com o Brasil, o que torna a disputa ainda mais política e estratégica.
A fala de Lula em Catalão transformou uma crise comercial em disputa simbólica. De um lado, os Estados Unidos ameaçam uma tarifa de 25% contra produtos brasileiros. Do outro, o Brasil defende o Pix como uma inovação pública, popular e estratégica.
Até 15 de julho, a negociação ainda pode mudar de rumo. Mas uma coisa já ficou evidente: o Pix saiu do aplicativo do banco e entrou no tabuleiro da geopolítica.















