
O Brasil chegou a abril de 2026 com 80,9% das famílias endividadas, o maior patamar da série da Peic. O dado revela um país onde o cartão, os juros altos, o custo de vida e as bets apertam o orçamento antes mesmo do mês terminar.
O recorde de endividamento das famílias não apareceu do nada. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, abril marcou o quarto mês seguido de alta no indicador, enquanto 29,7% das famílias tinham contas em atraso e 12,3% disseram não ter condições de pagar o que devem.
O cartão de crédito segue no centro do problema. Dados citados pela Agência Senado apontam que o rotativo pode passar de 400% ao ano, enquanto o cartão aparece como principal tipo de dívida para 83,6% das famílias. Na prática, uma compra pequena pode virar um peso enorme quando entra na engrenagem dos juros.
A taxa Selic também ajuda a explicar esse cenário. O Banco Central reduziu a taxa básica para 14,5% ao ano em abril de 2026, ainda em um nível alto para famílias que dependem de crédito para completar renda, comprar alimentos, pagar contas ou reorganizar dívidas.
O que está em jogo não é apenas uma planilha de economia. É o dinheiro do supermercado, o gás, a conta de luz, o material escolar e a consulta que muita gente adia porque o orçamento já nasceu comprometido.
Segundo o Banco Central, o endividamento mede a relação entre as dívidas das famílias no sistema financeiro e a renda acumulada em 12 meses. Já o comprometimento de renda mostra quanto da renda mensal é consumido pelo serviço da dívida. Esses indicadores ajudam a entender por que o problema vai além do “gastou demais”.
Para mim, o ponto mais duro é perceber que o crédito, que deveria ser uma ponte, virou um buraco para muita gente. Quando a família usa cartão para comprar comida, não estamos falando de consumo exagerado. Estamos falando de sobrevivência entrando no rotativo.
No Senado, o debate ganhou força com o avanço do Novo Desenrola Brasil, criado pela MP 1.355/2026. O programa busca renegociar dívidas em atraso e foi vinculado ao Ministério da Fazenda.
A medida permite refinanciar dívidas de até R$ 15 mil por banco, com juros limitados a 1,99% ao mês, para pessoas com renda mensal de até R$ 8.105. A Agência Senado também informou que a MP prevê descontos de até 90% em dívidas.
O senador Flávio Arns defende mecanismos permanentes de proteção às famílias e educação financeira para evitar que a dívida vire uma bola de neve. Já o senador Rogério Marinho critica programas de renegociação quando eles apenas trocam uma dívida antiga por outra nova, sem atacar a raiz do problema.
Outro ponto sensível é o avanço das apostas online. A reportagem do Senado aponta que as bets passaram a pressionar o orçamento doméstico e que estudo da CNC estima que cerca de R$ 30 bilhões por mês deixaram de circular no consumo tradicional para abastecer plataformas de apostas.
Enquanto Brasília discute taxa, spread, MP e comissão mista, no chão da cidade a conta chega sem cerimônia. A pessoa sabe o preço do arroz, sente o aumento da feira, percebe quando o salário acaba antes do dia 20. O drama do endividamento mora nesse intervalo entre o boleto vencido e a esperança de “dar um jeito” no mês seguinte.
Na Bahia, no comércio de bairro, na fila da lotérica, no mercadinho fiado e no celular cheio de cobrança, essa crise ganha rosto. Não é só sobre dever dinheiro. É sobre perder margem de escolha. A família deixa de planejar e passa a apagar incêndio.
O Novo Desenrola pode aliviar parte da pressão, principalmente para quem está negativado e precisa respirar. Mas renegociar dívida sem renda maior, juros menores e proteção contra armadilhas de crédito é como enxugar chão com torneira aberta.
O recorde de endividamento das famílias brasileiras mostra um país vivendo no limite do orçamento. Juros altos, cartão de crédito, custo de vida e apostas online formam uma combinação perigosa para quem já tem pouca renda sobrando.
A saída exige mais que mutirões de renegociação. Exige crédito menos abusivo, renda, emprego, educação financeira e responsabilidade pública. Porque por trás de cada percentual existe uma casa fazendo conta, uma mãe cortando gasto, um trabalhador escolhendo qual boleto vai esperar.



















