Educação na Bahia avança na infância, mas trava na juventude

Por Murillo Vazquez
19/06/2026

Publicado em - -

Noticia oXarope_educação_1_19JUN2026

A Bahia teve o maior avanço do país na presença de crianças de até 5 anos na creche ou escola em 2025. O salto animou, colocou o estado em 4º lugar no ranking nacional, mas os mesmos dados do IBGE mostram um retrato menos confortável entre adolescentes, jovens e adultos.

Os novos dados do módulo Educação da PNAD Contínua 2025, divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira, 19 de junho de 2026, mostram uma virada importante na primeira infância baiana. Em 2025, 63,7% das crianças de 0 a 5 anos estavam na creche ou escola, o equivalente a 634 mil das 995 mil crianças nessa faixa etária.

Um ano antes, essa taxa era de 56,6%. A alta de 7,1 pontos percentuais foi a maior entre todos os estados. Com isso, a Bahia saiu da 15ª para a 4ª posição nacional e passou a liderar o Norte e o Nordeste nesse indicador. Ficou atrás apenas de Santa Catarina, São Paulo e Paraná.

O avanço apareceu nas duas pontas da infância. Entre crianças de 0 a 3 anos, a escolarização subiu de 35,8% para 43,1%. Entre as de 4 e 5 anos, passou de 95,2% para 97,8%. Ainda assim, a Bahia não alcançou as metas do Plano Nacional de Educação, que previa pelo menos 50% das crianças de 0 a 3 anos na escola e universalização na faixa de 4 a 5 anos.

O problema é que o bom desempenho na infância não se repetiu entre os mais velhos. Na faixa de 6 a 14 anos, a frequência escolar ficou estável em 99,5%. Já entre adolescentes de 15 a 17 anos, caiu de 96,0% para 93,3%. Entre jovens de 18 a 24 anos, também recuou, de 32,5% para 29,9%.

A queda entre adolescentes foi uma das mais fortes do país. A Bahia, que em 2024 liderava o ranking nacional da escolarização de 15 a 17 anos, caiu para a 10ª posição em 2025. É um tombo simbólico, porque acontece justamente na idade em que o jovem deveria estar consolidando a passagem para o Ensino Médio e pensando no futuro.

Quando a creche chega, a rotina muda. A mãe consegue procurar trabalho, o pai organiza melhor o dia, a criança convive, aprende, fala mais, brinca mais, entra no mundo com algum apoio. Na Bahia, esse crescimento na primeira infância é uma notícia boa e concreta.

Mas educação não é corrida de cem metros. É travessia longa. E os dados mostram que muita gente começa a caminhada, mas vai ficando pelo caminho.

Em 2025, 2 em cada 10 estudantes baianos de 15 a 17 anos estavam atrasados, ou seja, ainda não tinham chegado ao Ensino Médio. Eram 122 mil adolescentes nessa situação. O número melhorou em relação a 2024, quando eram 166 mil, mas continua alto demais pra quem olha a escola como ponte e não como estatística.

A média de anos de estudo das pessoas de 25 anos ou mais ficou em 8,9 anos na Bahia. Isso chega perto do Ensino Fundamental completo, mas ainda deixa o estado com a 6ª menor média do país. Mais da metade dos adultos baianos, 51,8%, não concluiu o Ensino Básico. E só 13,1% tinham Ensino Superior completo.

Pra mim, o que mais chama atenção é como uma planilha educacional acaba aparecendo no balcão da padaria, na fila do ônibus e na entrevista de emprego. O dado parece frio, mas ele decide quem tem chance, quem espera e quem nem chega a bater na porta.

Os números do IBGE ajudam a enxergar uma Bahia de contrastes. De um lado, o estado conseguiu ampliar de forma expressiva a presença das crianças pequenas na escola. De outro, segue carregando dificuldades antigas na alfabetização, na conclusão do Ensino Médio e no acesso à universidade.

A taxa de analfabetismo caiu pelo quarto levantamento consecutivo, chegando a 9,5% em 2025. Ainda assim, a Bahia mantinha 1,145 milhão de pessoas de 15 anos ou mais que não sabiam ler nem escrever um bilhete simples. Era o maior número absoluto de analfabetos do país.

Entre os idosos, o quadro pesa ainda mais. Seis em cada dez pessoas analfabetas na Bahia tinham 60 anos ou mais. A taxa de analfabetismo nesse grupo chegava a 28,5%, quase três em cada dez idosos. É uma dívida antiga, dessas que o país empurra com a barriga e depois finge surpresa quando ela aparece na vida real.

Também há desigualdade entre homens e mulheres, brancos, pretos e pardos. As mulheres tinham mais anos de estudo em média que os homens, 9,4 contra 8,4. Mas entre os jovens que não estudavam nem tinham trabalho remunerado, a situação se invertia com força: 27,3% das mulheres de 15 a 29 anos estavam nessa condição, contra 14,3% dos homens.

No Ensino Superior, a desigualdade racial segue escancarada. Em 2025, 22,3% das pessoas brancas de 25 anos ou mais na Bahia tinham diploma universitário. Entre pretas e pardas, eram 11,0%. O acesso à universidade, nesse ritmo, ainda parece mais perto de alguns CEPs, sobrenomes e trajetórias do que de outros.

A Bahia tem motivo para comemorar o avanço na primeira infância. Não é pouco sair da metade de crianças pequenas fora da escola para um patamar acima da média nacional. Creche e pré-escola não são depósito de menino, como muita gente ainda fala por aí. São política pública de desenvolvimento, cuidado, alimentação, linguagem, proteção e futuro.

Mas o retrato completo incomoda. O estado melhora no começo da vida escolar e patina quando a educação começa a exigir permanência, transporte, renda familiar, professor valorizado, escola atrativa e perspectiva de trabalho. É aí que o brilho do primeiro dado encontra a poeira da estrada.

O adolescente que abandona ou atrasa os estudos raramente faz isso porque “não quer nada”. Muitas vezes falta dinheiro em casa, falta transporte, falta conexão entre a escola e a vida que ele enfrenta do lado de fora do portão. Às vezes, falta até esperança prática. Aquela esperança miúda de pensar: se eu continuar, alguma coisa pode mudar.

O dado sobre jovens de 15 a 29 anos sem estudo e sem trabalho remunerado também precisa ser lido com cuidado. Chamar todo esse grupo de “nem-nem” pode ser cômodo, mas esconde muita coisa. Tem jovem cuidando de irmão, mulher presa ao trabalho doméstico não pago, gente procurando vaga e não encontrando, gente que saiu da escola porque precisava botar dinheiro dentro de casa.

A educação baiana avançou onde havia espaço urgente para avançar. Agora, o desafio é não deixar essa criança que entrou na escola aos 4 anos virar, aos 17, mais um número na estatística do atraso. A política pública que comemora matrícula precisa acompanhar permanência, aprendizagem e conclusão. Porque vaga sem trajetória completa é promessa pela metade.

A PNAD Contínua 2025 mostra que a Bahia conseguiu dar um passo grande na escolarização das crianças pequenas. Isso importa, muda vidas e precisa ser reconhecido. Mas o mesmo levantamento mostra que o estado ainda carrega feridas abertas: analfabetismo alto, baixa conclusão do Ensino Básico, pouca presença no Ensino Superior e jovens demais fora da escola e do trabalho.

O começo melhorou. Agora, a pergunta que fica é se a Bahia vai conseguir garantir o caminho inteiro ou se vai continuar deixando parte da sua juventude na beira da estrada.

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Educação na Bahia avança na infância, mas trava na juventude

Por Murillo Vazquez
19/06/2026 - 13h00 - Atualizado 19 de junho de 2026

Publicado em - -

Noticia oXarope_educação_1_19JUN2026

A Bahia teve o maior avanço do país na presença de crianças de até 5 anos na creche ou escola em 2025. O salto animou, colocou o estado em 4º lugar no ranking nacional, mas os mesmos dados do IBGE mostram um retrato menos confortável entre adolescentes, jovens e adultos.

Os novos dados do módulo Educação da PNAD Contínua 2025, divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira, 19 de junho de 2026, mostram uma virada importante na primeira infância baiana. Em 2025, 63,7% das crianças de 0 a 5 anos estavam na creche ou escola, o equivalente a 634 mil das 995 mil crianças nessa faixa etária.

Um ano antes, essa taxa era de 56,6%. A alta de 7,1 pontos percentuais foi a maior entre todos os estados. Com isso, a Bahia saiu da 15ª para a 4ª posição nacional e passou a liderar o Norte e o Nordeste nesse indicador. Ficou atrás apenas de Santa Catarina, São Paulo e Paraná.

O avanço apareceu nas duas pontas da infância. Entre crianças de 0 a 3 anos, a escolarização subiu de 35,8% para 43,1%. Entre as de 4 e 5 anos, passou de 95,2% para 97,8%. Ainda assim, a Bahia não alcançou as metas do Plano Nacional de Educação, que previa pelo menos 50% das crianças de 0 a 3 anos na escola e universalização na faixa de 4 a 5 anos.

O problema é que o bom desempenho na infância não se repetiu entre os mais velhos. Na faixa de 6 a 14 anos, a frequência escolar ficou estável em 99,5%. Já entre adolescentes de 15 a 17 anos, caiu de 96,0% para 93,3%. Entre jovens de 18 a 24 anos, também recuou, de 32,5% para 29,9%.

A queda entre adolescentes foi uma das mais fortes do país. A Bahia, que em 2024 liderava o ranking nacional da escolarização de 15 a 17 anos, caiu para a 10ª posição em 2025. É um tombo simbólico, porque acontece justamente na idade em que o jovem deveria estar consolidando a passagem para o Ensino Médio e pensando no futuro.

Quando a creche chega, a rotina muda. A mãe consegue procurar trabalho, o pai organiza melhor o dia, a criança convive, aprende, fala mais, brinca mais, entra no mundo com algum apoio. Na Bahia, esse crescimento na primeira infância é uma notícia boa e concreta.

Mas educação não é corrida de cem metros. É travessia longa. E os dados mostram que muita gente começa a caminhada, mas vai ficando pelo caminho.

Em 2025, 2 em cada 10 estudantes baianos de 15 a 17 anos estavam atrasados, ou seja, ainda não tinham chegado ao Ensino Médio. Eram 122 mil adolescentes nessa situação. O número melhorou em relação a 2024, quando eram 166 mil, mas continua alto demais pra quem olha a escola como ponte e não como estatística.

A média de anos de estudo das pessoas de 25 anos ou mais ficou em 8,9 anos na Bahia. Isso chega perto do Ensino Fundamental completo, mas ainda deixa o estado com a 6ª menor média do país. Mais da metade dos adultos baianos, 51,8%, não concluiu o Ensino Básico. E só 13,1% tinham Ensino Superior completo.

Pra mim, o que mais chama atenção é como uma planilha educacional acaba aparecendo no balcão da padaria, na fila do ônibus e na entrevista de emprego. O dado parece frio, mas ele decide quem tem chance, quem espera e quem nem chega a bater na porta.

Os números do IBGE ajudam a enxergar uma Bahia de contrastes. De um lado, o estado conseguiu ampliar de forma expressiva a presença das crianças pequenas na escola. De outro, segue carregando dificuldades antigas na alfabetização, na conclusão do Ensino Médio e no acesso à universidade.

A taxa de analfabetismo caiu pelo quarto levantamento consecutivo, chegando a 9,5% em 2025. Ainda assim, a Bahia mantinha 1,145 milhão de pessoas de 15 anos ou mais que não sabiam ler nem escrever um bilhete simples. Era o maior número absoluto de analfabetos do país.

Entre os idosos, o quadro pesa ainda mais. Seis em cada dez pessoas analfabetas na Bahia tinham 60 anos ou mais. A taxa de analfabetismo nesse grupo chegava a 28,5%, quase três em cada dez idosos. É uma dívida antiga, dessas que o país empurra com a barriga e depois finge surpresa quando ela aparece na vida real.

Também há desigualdade entre homens e mulheres, brancos, pretos e pardos. As mulheres tinham mais anos de estudo em média que os homens, 9,4 contra 8,4. Mas entre os jovens que não estudavam nem tinham trabalho remunerado, a situação se invertia com força: 27,3% das mulheres de 15 a 29 anos estavam nessa condição, contra 14,3% dos homens.

No Ensino Superior, a desigualdade racial segue escancarada. Em 2025, 22,3% das pessoas brancas de 25 anos ou mais na Bahia tinham diploma universitário. Entre pretas e pardas, eram 11,0%. O acesso à universidade, nesse ritmo, ainda parece mais perto de alguns CEPs, sobrenomes e trajetórias do que de outros.

A Bahia tem motivo para comemorar o avanço na primeira infância. Não é pouco sair da metade de crianças pequenas fora da escola para um patamar acima da média nacional. Creche e pré-escola não são depósito de menino, como muita gente ainda fala por aí. São política pública de desenvolvimento, cuidado, alimentação, linguagem, proteção e futuro.

Mas o retrato completo incomoda. O estado melhora no começo da vida escolar e patina quando a educação começa a exigir permanência, transporte, renda familiar, professor valorizado, escola atrativa e perspectiva de trabalho. É aí que o brilho do primeiro dado encontra a poeira da estrada.

O adolescente que abandona ou atrasa os estudos raramente faz isso porque “não quer nada”. Muitas vezes falta dinheiro em casa, falta transporte, falta conexão entre a escola e a vida que ele enfrenta do lado de fora do portão. Às vezes, falta até esperança prática. Aquela esperança miúda de pensar: se eu continuar, alguma coisa pode mudar.

O dado sobre jovens de 15 a 29 anos sem estudo e sem trabalho remunerado também precisa ser lido com cuidado. Chamar todo esse grupo de “nem-nem” pode ser cômodo, mas esconde muita coisa. Tem jovem cuidando de irmão, mulher presa ao trabalho doméstico não pago, gente procurando vaga e não encontrando, gente que saiu da escola porque precisava botar dinheiro dentro de casa.

A educação baiana avançou onde havia espaço urgente para avançar. Agora, o desafio é não deixar essa criança que entrou na escola aos 4 anos virar, aos 17, mais um número na estatística do atraso. A política pública que comemora matrícula precisa acompanhar permanência, aprendizagem e conclusão. Porque vaga sem trajetória completa é promessa pela metade.

A PNAD Contínua 2025 mostra que a Bahia conseguiu dar um passo grande na escolarização das crianças pequenas. Isso importa, muda vidas e precisa ser reconhecido. Mas o mesmo levantamento mostra que o estado ainda carrega feridas abertas: analfabetismo alto, baixa conclusão do Ensino Básico, pouca presença no Ensino Superior e jovens demais fora da escola e do trabalho.

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