
Menos de 48 horas depois de perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos, contrariando uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). A saída, ocorrida na terça-feira (27), passou pela fronteira com a Argentina e abriu uma nova crise envolvendo a família Bolsonaro, a Justiça brasileira e o futuro da oposição no país.
A sequência dos acontecimentos começou a ganhar força na segunda-feira, 26 de outubro, quando Flávio Bolsonaro foi intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes, comum e diplomático, no prazo de 24 horas.
A decisão partiu do ministro Alexandre de Moraes, do STF, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz. Os dois negam irregularidades.
Além da entrega dos documentos, Flávio estava proibido de deixar o território brasileiro.
Naquele mesmo dia, o senador divulgou um vídeo nas redes sociais, contestou a decisão judicial e garantiu que permaneceria no Brasil para organizar a oposição ao presidente Lula, reeleito no segundo turno de domingo, 25 de outubro.
O prazo para entregar os passaportes terminou sem que a determinação fosse cumprida. A Polícia Federal cancelou os documentos nos seus sistemas, enquanto surgiam informações de que o parlamentar havia deixado Brasília e seguido para a região da Tríplice Fronteira.
A agência Reuters informou, com base em um aliado próximo de Flávio e uma fonte do governo norte-americano, que o senador havia fugido para os Estados Unidos. A notícia foi posteriormente reforçada por relatos de integrantes do próprio campo político bolsonarista. Agência Brasil+2
A movimentação ganhou contornos mais concretos na madrugada desta quarta-feira, 28.
Segundo informações divulgadas pelo UOL, o governo argentino confirmou que Flávio Bolsonaro entrou no país acompanhado da esposa, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e das duas filhas.
A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que o grupo atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones, às 22h50 de terça-feira.
Às 23h30, a família embarcou em um voo privado operado pela Baires Fly, com destino inicialmente registrado para Guayaquil, no Equador. Posteriormente, o plano de voo foi atualizado para Miami, na Flórida.
As autoridades argentinas afirmaram que a entrada no país ocorreu com documentação válida e sem impedimentos registrados em seus sistemas. Isso não elimina o fato de que havia uma ordem judicial brasileira proibindo a saída do senador. UOL Notícias+1
A rota, que passou por uma das regiões de fronteira mais movimentadas da América do Sul, passou a ser uma peça central da apuração. Ainda restam perguntas sobre como ocorreu o deslocamento dentro do Brasil e quem participou da organização da viagem.
A chegada aos Estados Unidos foi registrada nesta quarta-feira, pouco antes das 10h30, no horário de Brasília. Segundo a Agência Brasil, a aeronave pousou no aeroporto de Opa-Locka, em Miami, após aproximadamente quatro horas de voo desde o Equador. Agência Brasil
O episódio vai além de uma viagem internacional. Flávio Bolsonaro é senador da República, disputou a Presidência e recebeu cerca de 60 milhões de votos, segundo declaração de seu coordenador de campanha, Rogério Marinho.
Isso significa que sua saída do Brasil atinge também a organização política de uma parcela expressiva do eleitorado.
Para seus aliados, o senador deveria assumir a liderança da oposição ao terceiro mandato consecutivo de Lula, iniciado em 2023 e renovado nas urnas para o período de 2027 a 2030.
Agora, o partido precisa lidar com um problema inesperado: um de seus principais nomes está fora do país, enquanto responde a investigações e enfrenta questionamentos sobre o descumprimento de uma decisão judicial.
Embora a saída do Brasil tenha ocorrido em desacordo com uma determinação do STF, isso não significa, automaticamente, que o senador seja formalmente considerado foragido da Justiça.
Segundo análise publicada pelo JOTA em 27 de outubro, o descumprimento de uma medida judicial pode gerar consequências processuais, mas a condição formal de foragido depende de outros elementos, como a existência de uma ordem de prisão.
Até as informações verificadas para esta reportagem, não havia confirmação de mandado de prisão contra Flávio Bolsonaro.
A situação poderá mudar conforme as decisões judiciais e as informações apresentadas pela Polícia Federal. JOTA Jornalismo+1
Outro ponto é o alcance das investigações. A apuração envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro não foi encerrada com a saída do senador do território nacional. Também não existe condenação definitiva contra ele nesses casos.
Pra quem acompanha a política brasileira da porta de casa, do balcão do comércio ou pelo celular durante o intervalo do trabalho, a pergunta é bastante simples: como uma autoridade submetida a uma ordem da Justiça consegue deixar o país antes que a medida seja efetivamente cumprida?
A resposta interessa a todos, independentemente de partido.
A repercussão atingiu tanto adversários quanto integrantes do próprio Partido Liberal.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, afirmou ter sido surpreendido pela saída do país.
Segundo Marinho, os dois haviam conversado na segunda-feira sobre a necessidade de o ex-candidato assumir o comando da oposição.
“Estamos surpresos porque ontem nós conversamos sobre a necessidade de que Flávio, com os 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da oposição.”
Marinho contou ainda ter recebido uma mensagem do senador na manhã de terça-feira, na qual Flávio afirmava que iria dar um tempo antes de voltar a conversar com os aliados.
Já o senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ) apresentou uma interpretação diferente, associando a saída do país a uma estratégia política contra o ministro Alexandre de Moraes.
Essas manifestações mostram que o episódio também provocou divergências dentro do campo bolsonarista.
Do outro lado da disputa política, o presidente Lula criticou publicamente a viagem.
Durante manifestação diante de apoiadores no Palácio da Alvorada, na terça-feira, o presidente reeleito classificou a atitude do adversário como um ato vergonhoso.
Lula também relembrou sua própria entrega à Polícia Federal, em abril de 2018, quando iniciou o cumprimento de uma pena posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal.
A comparação feita pelo presidente tem peso político, mas os episódios envolvem situações jurídicas diferentes. No caso de Lula, havia uma ordem de prisão.















