O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para mais quatro anos à frente do Palácio do Planalto, após vencer o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). O resultado, confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), encerrou uma disputa acirrada contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), que inicialmente se recusou a reconhecer a derrota e anunciou a intenção de pedir a anulação do pleito.

Lula conquistou 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de 4.430.191 votos, aproximadamente 3,58 pontos percentuais.
Lula (PT)
51,79%
64.256.232 votos
Flávio Bolsonaro (PL)
48,21%
59.826.041 votos
Resultado oficial divulgado pelo TSE em 25 de outubro de 2026.
Em pronunciamento após a totalização dos votos, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, destacou a participação popular e o trabalho da Justiça Eleitoral para assegurar o exercício do voto.
O balanço apontou que mais de 128 milhões de brasileiros compareceram às urnas, com abstenção próxima de 19,2%, inferior aos 21,08% registrados no primeiro turno. O país contou com mais de 95 mil locais de votação e 499.248 urnas eletrônicas, das quais apenas 1.551 precisaram ser substituídas, o equivalente a 0,31% dos equipamentos.
O resultado oficial, entretanto, passou a ser questionado pelo candidato derrotado, principalmente em razão da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de permitir a ampliação do horário de votação em determinadas circunstâncias.
Flávio Bolsonaro questionou uma medida que sua própria campanha também solicitou
Na noite de domingo, após a confirmação da derrota, Flávio Bolsonaro declarou que não reconheceria o resultado eleitoral e afirmou que acionaria seus advogados para pedir a anulação da votação.

O principal argumento apresentado pelo senador foi a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que determinou a prorrogação do horário de votação das 17h para as 19h, horário de Brasília, em seções eleitorais ainda em funcionamento.
O que Flávio Bolsonaro não mencionou naquele pronunciamento é que a própria campanha do PL também havia solicitado à Justiça a ampliação do horário de votação.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil e pelo portal jurídico JOTA, a campanha de Lula apresentou pedidos relacionados às dificuldades de transporte público, especialmente em municípios baianos. Já a candidatura de Flávio solicitou a extensão da votação em localidades atingidas por chuvas intensas, alagamentos e problemas de deslocamento no Sul e Sudeste.
Portanto, não corresponde aos fatos apresentar a prorrogação como uma iniciativa solicitada exclusivamente pela campanha vencedora. As duas candidaturas recorreram à Justiça buscando garantir o comparecimento de eleitores em situações específicas.
Alegação sobre fiscais retirados de sala-cofre também é contestada
Outra declaração de Flávio Bolsonaro envolveu a suposta retirada de fiscais do PL da sala-cofre do TSE após a decisão sobre o horário de votação.
A acusação foi analisada pela agência de checagem Aos Fatos, que publicou uma verificação em 26 de outubro.
Segundo a apuração, a Justiça Eleitoral esclareceu que a sala-cofre não é um ambiente de acesso público e informou possuir imagens capazes de comprovar a presença dos fiscais nas dependências do Tribunal.
A alegação de expulsão de fiscais da sala-cofre, portanto, não foi sustentada pelos elementos apresentados. A fiscalização eleitoral não se confunde com o acesso irrestrito às instalações técnicas responsáveis pelo processamento dos resultados.
Prorrogação provocou dificuldades operacionais, mas não comprova fraude
O próprio presidente do TSE reconheceu que a decisão de ampliar o horário de votação provocou desafios técnicos e administrativos.

Segundo Kassio Nunes Marques, a determinação judicial ocorreu quando milhares de urnas já haviam sido encerradas, impossibilitando sua reabertura. A Justiça Eleitoral precisou interromper temporariamente o recebimento dos Boletins de Urna, provocando acúmulo de arquivos que aguardavam processamento.
Esse cenário exigiu adaptações das equipes técnicas e retardou etapas da totalização.
É importante distinguir, entretanto, um problema operacional de uma fraude eleitoral. A existência de dificuldades na execução de uma decisão judicial não demonstra, por si só, manipulação de votos ou alteração irregular dos resultados.
De acordo com dados do TSE divulgados pela imprensa, apenas 34.330 votos foram registrados após as 17h, quantidade muito inferior à diferença de mais de 4,4 milhões de votos entre os candidatos. O dado não resolve isoladamente todas as discussões jurídicas sobre a prorrogação, mas oferece uma dimensão objetiva de seu alcance.
Após anunciar anulação, Flávio muda estratégia e passa a defender cassação da chapa de Lula
A reação do candidato derrotado sofreu uma mudança importante na segunda-feira (26). Depois de anunciar que buscaria anular a eleição, Flávio Bolsonaro recuou dessa iniciativa e passou a defender uma ação para tentar cassar a chapa formada por Lula e pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
O senador passou a alegar suposto abuso de poder político e econômico durante a campanha, incluindo o uso de recursos públicos e a divulgação de informações falsas contra sua candidatura.
Essas acusações, contudo, precisam ser demonstradas mediante provas e analisadas pela Justiça Eleitoral. Até o momento das informações consultadas, não há decisão judicial reconhecendo as irregularidades apontadas pelo senador ou determinando a cassação da chapa reeleita.
A mudança de estratégia foi noticiada pelo UOL, pela Folha de S.Paulo e pelo R7, que relataram resistências jurídicas à proposta inicial de anular a votação.
PL reconhece oficialmente a vitória de Lula
Um dos acontecimentos políticos mais importantes após o segundo turno foi a posição adotada pelo próprio Partido Liberal.

Na noite de segunda-feira (26), o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, divulgou uma nota reconhecendo o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O comunicado, entretanto, manteve questionamentos sobre medidas do governo federal durante a campanha, especialmente a ampliação de gastos públicos com benefícios sociais.
A manifestação do partido representou uma diferença de posicionamento em relação ao pronunciamento inicial de Flávio Bolsonaro, que havia declarado não reconhecer o resultado das urnas.
O reconhecimento oficial pelo PL não impede que a legenda apresente questionamentos judiciais. Significa, porém, que a direção partidária reconheceu a proclamação do resultado, enquanto eventuais alegações de irregularidades seguem sujeitas à análise das instituições competentes.
Respeitar a vontade popular também faz parte da democracia

As eleições brasileiras asseguram aos candidatos o direito de recorrer à Justiça, apresentar denúncias e questionar procedimentos que considerem irregulares. Esse direito faz parte do Estado Democrático de Direito e deve ser preservado independentemente do partido ou da candidatura envolvida.
Entretanto, contestar judicialmente um resultado exige fundamentos jurídicos e elementos de prova. A discordância política, por si só, não invalida uma eleição.
A vitória de Lula não elimina a representatividade dos quase 60 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro. Da mesma forma, a expressiva votação do candidato derrotado não modifica a maioria de votos válidos conquistada pelo presidente reeleito.
Em uma democracia, quem vence assume a responsabilidade de governar para toda a população, incluindo aqueles que escolheram outra candidatura. Quem perde mantém o direito de fiscalizar, criticar e exercer oposição dentro das regras constitucionais.
O desafio que se apresenta ao Brasil após as eleições de 2026 vai além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Envolve o respeito às instituições, a fiscalização dos atos de governo, o compromisso com a verdade e a capacidade de reconhecer que o resultado das urnas não pertence exclusivamente aos partidos, mas à decisão dos eleitores.
A democracia garante o direito de disputar, vencer, perder, questionar e fazer oposição. O que sustenta sua legitimidade é o respeito às regras, às provas e à soberania do voto popular.















