A pensão que hoje muitas famílias precisam conferir, cobrar e, às vezes, perseguir mês após mês poderá ser transferida automaticamente entre contas bancárias. Sancionada em 29 de julho de 2026, a Lei nº 15.479 altera o Código de Processo Civil, mas só começa a valer após um ano da publicação, no fim de julho de 2027.
Conhecida popularmente como “Pix Pensão”, a nova lei permite que o juiz determine a transferência mensal automática do valor da pensão alimentícia da conta do devedor para a conta do beneficiário ou de seu representante legal.

O nome pegou durante a tramitação do projeto, mas há um detalhe importante: o texto da lei não determina que a operação será obrigatoriamente feita pelo Pix. A norma fala em um sistema eletrônico gerido pela autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro. O formato técnico ainda dependerá da regulamentação e da integração entre Judiciário, Banco Central e instituições financeiras.
A mudança foi sancionada sem vetos e publicada no Diário Oficial da União em 30 de julho de 2026. Pela regra de vigência, o mecanismo passará a produzir efeitos após decorrido um ano da publicação. Até lá, os órgãos envolvidos terão de preparar sistemas, procedimentos e padrões para receber e executar as ordens judiciais.
A nova modalidade não acaba com o desconto em folha, com os pagamentos feitos diretamente pelo devedor nem com os meios de cobrança já previstos no Código de Processo Civil. Ela acrescenta uma ferramenta especialmente relevante nos casos em que o responsável pelo pagamento não possui emprego formal ou renda vinculada a uma folha salarial.
Quem poderá pedir e como vai funcionar
O pagamento automático não será ativado sozinho para todas as pessoas que recebem pensão. Será necessário apresentar um pedido ao juiz responsável pelo processo.
A lei permite que o credor solicite a transferência automática em qualquer fase do cumprimento da sentença. O mecanismo também poderá ser estabelecido durante a fase em que a obrigação está sendo discutida e fixada. A regra alcança, ainda, no que couber, execuções de pensão baseadas em outros títulos executivos admitidos pela legislação.
Na decisão, o juiz deverá informar o nome e o CPF das partes, o valor mensal, o período de duração, as contas de débito e crédito, a forma de reajuste da pensão, o índice de correção, os juros aplicáveis em caso de atraso e as providências para situações de saldo insuficiente.
O devedor poderá indicar uma conta preferencial para o débito. A conta de recebimento deverá pertencer ao beneficiário da pensão ou ao seu representante legal. O texto da lei não exige a abertura de uma conta bancária exclusiva nem menciona a obrigação de informar uma chave Pix. O dado indispensável é a identificação das contas definidas na ordem judicial.
Também não se trata de um simples Pix agendado pelo pagador. A transferência nasce de uma determinação judicial e será executada pela instituição financeira. Na prática, qualquer alteração do valor, da duração ou da forma de pagamento deverá ser tratada dentro do processo, e não apenas no aplicativo do banco.
O banco terá de informar periodicamente ao juízo os valores transferidos, as datas das operações e a eventual cobrança de juros de mora. Essas informações serão incluídas nos autos, criando um histórico oficial dos pagamentos realizados.
E se não houver saldo na conta
Caso a conta indicada não tenha dinheiro suficiente na data do pagamento, a instituição financeira deverá informar a situação à autoridade supervisora do sistema financeiro.
A partir daí, poderão ser tornados indisponíveis ativos do devedor, como dinheiro mantido em outras contas e aplicações, títulos da dívida pública e determinados valores mobiliários. O bloqueio deverá ficar limitado ao valor atualizado da parcela em atraso.
Os ativos financeiros de empresário individual também poderão ser atingidos, mesmo quando relacionados à atividade empresarial, respeitado o limite da dívida alimentar.
Isso não significa que qualquer valor bloqueado será entregue imediatamente ao beneficiário, sem direito de defesa. A lei manda aplicar as regras processuais sobre indisponibilidade de ativos, permitindo que o devedor conteste eventual excesso ou demonstre que determinada quantia não poderia ter sido bloqueada.
Se a contestação não for apresentada ou for rejeitada, o bloqueio poderá ser convertido em penhora. Nesse caso, o juiz determinará que a instituição financeira transfira o montante para a conta indicada no prazo de 24 horas. Se os bens encontrados não forem suficientes, o credor poderá continuar a cobrança pelos demais caminhos previstos no Código de Processo Civil.
As consequências já existentes para o não pagamento da pensão não desaparecem. Dependendo das circunstâncias e da dívida cobrada, o processo poderá seguir pelas medidas previstas no artigo 528 do CPC, inclusive aquelas aplicáveis aos casos de inadimplência alimentar.
A Lei nº 15.479 nasceu do Projeto de Lei nº 4.978/2023, apresentado pela deputada Tabata Amaral e outros parlamentares. Depois de passar pela Câmara e pelo Senado, o texto foi sancionado pelo Governo Federal sem vetos.
A presidente da Comissão de Processo Civil do Instituto Brasileiro de Direito de Família, Fernanda Tartuce, afirmou que a iniciativa tem potencial para tornar mais eficiente o cumprimento das obrigações alimentares. Segundo ela, o novo modelo pode aumentar a regularidade dos pagamentos, mas ainda depende de regulamentação para esclarecer procedimentos e garantias.
O próprio IBDFAM encaminhou ao Conselho Nacional de Justiça um pedido de regulamentação nacional. A preocupação é evitar que cada tribunal adote um sistema diferente, criando falhas, atrasos ou interpretações incompatíveis entre os estados.
Entre as propostas apresentadas estão uma plataforma integrada, modelos padronizados para as decisões, controle das parcelas vencidas e futuras, atualização automática dos valores e conexão com sistemas de localização de patrimônio.
A lei também determina que o CNJ produza e divulgue estatísticas sobre ações de alimentos, preservando o anonimato das pessoas envolvidas. A ideia é reunir informações sobre quantidade de processos, valores, penhoras e perfil dos beneficiários para ajudar no planejamento de políticas públicas.
Onde buscar auxílio jurídico gratuito
Quem já recebe pensão fixada pela Justiça deverá acompanhar o processo e, após a entrada em vigor da lei, pedir orientação a um advogado ou à Defensoria Pública do estado.
A Defensoria presta assistência jurídica gratuita a pessoas que não têm condições de contratar um profissional particular. Os critérios de atendimento, documentos exigidos e formas de agendamento podem variar conforme o estado e a situação da família. Núcleos de prática jurídica de universidades também podem oferecer orientação, conforme a disponibilidade local.
O Pix Pensão não começa imediatamente e também não será uma transferência informal controlada pelo celular do devedor. Será uma ordem judicial executada pelo sistema financeiro, com registro no processo e possibilidade de bloqueio limitado ao valor devido.
Quando funcionar, poderá reduzir atrasos e aliviar a rotina de milhares de famílias. Mas o resultado dependerá menos do apelido moderno e mais da qualidade da regulamentação. Porque pensão alimentícia não é favor, promessa nem ajuda eventual. É obrigação, e obrigação tem data pra chegar.














