A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, abriu caminho para uma ofensiva da Polícia Federal contra mais de 50 pessoas, empresas e entidades investigadas por possível desvio de recursos públicos. A Operação Make Up cumpriu nesta quinta-feira, 10 de setembro, 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
A investigação apura a destinação de recursos públicos, principalmente emendas parlamentares enviadas ao Instituto Conhecer Brasil, o ICB, presidido por Karina Ferreira da Gama. Ela também possui ligação com a Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor executivo e roteirista do longa, aparece entre os nomes citados na apuração. Segundo o documento, o ICB recebeu R$ 2 milhões por meio de duas emendas indicadas pelo parlamentar. A PF investiga se parte do dinheiro, destinado oficialmente a projetos sociais e educacionais, foi usada para outras finalidades.

Um dos projetos recebeu R$ 1 milhão para ações de empreendedorismo. As contratações consumiram todo o valor da parceria, com pagamentos de R$ 400 mil para uma editora, R$ 300 mil para uma instituição educacional, R$ 150 mil para uma assessoria, R$ 80 mil para uma consultoria, R$ 50 mil para outra empresa e R$ 20 mil para mais um fornecedor.
A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União passaram a analisar os vínculos entre os fornecedores, os responsáveis pelas empresas e pessoas próximas ao grupo investigado. A suspeita é de que algumas companhias tenham sido subcontratadas irregularmente, sem comprovação suficiente dos serviços pagos com recursos públicos.
Outra movimentação que despertou a atenção dos investigadores envolve R$ 645,4 mil transferidos diretamente por Mário Frias à Go Up Entertainment. Os pagamentos ocorreram em menos de dois meses, entre novembro e dezembro de 2025, período que coincide com as filmagens de “Dark Horse”.
Segundo a PF, o montante levantou dúvidas sobre a origem dos recursos, considerando os rendimentos mensais atribuídos ao deputado, estimados em cerca de R$ 44 mil. A movimentação, isoladamente, não comprova a prática de crime, mas passou a ser analisada em conjunto com as demais operações financeiras identificadas.
A Go Up teria movimentado R$ 19,03 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. Foram R$ 8,95 milhões em créditos e aproximadamente R$ 10,07 milhões em débitos. Os investigadores também rastrearam R$ 750 mil enviados à produtora por uma empresa ligada ao mesmo grupo de empresários presente em contratos financiados com recursos recebidos pelo ICB.
A apuração não se limita à produção cinematográfica. O Instituto Conhecer Brasil participa de um contrato com a Prefeitura de São Paulo para instalação e manutenção de pontos de internet gratuita, inicialmente estimado em cerca de R$ 108 milhões. Empresas subcontratadas nesse acordo também entraram no radar da investigação.
A Prefeitura de São Paulo informou que não identificou irregularidades na execução do contrato e afirmou estar colaborando com as autoridades. A manifestação é relevante porque os fatos ainda estão sob investigação e as suspeitas levantadas pela polícia não representam comprovação definitiva de irregularidades.
Além das buscas, Dino proibiu 29 investigados de deixar o Brasil sem autorização judicial e de manter contato entre si. Também determinou que 22 empresas e entidades fiquem impedidas de celebrar contratos com o poder público enquanto a medida cautelar permanecer em vigor.
Os 49 mandados não correspondem necessariamente a 49 pessoas. Quando consideradas as 29 pessoas submetidas às restrições e as 22 empresas ou entidades alcançadas pela decisão, a operação envolve pelo menos 51 pessoas físicas e jurídicas.
O ministro também autorizou medidas para localizar aparelhos telefônicos vinculados aos investigados. As operadoras poderão fornecer dados de localização dos terminais, inclusive em tempo real, pelo prazo de 15 dias. Os mandados de busca pessoal terão validade de 30 dias.
A PF apura possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em licitações e contratos públicos. Os levantamentos financeiros teriam identificado movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas incluídas no conjunto investigado.
Na decisão, Dino considerou haver risco de combinação de versões, destruição ou ocultação de provas e interferência na coleta de informações ainda pendentes. Esses argumentos sustentaram parte das medidas impostas aos investigados.
Mário Frias já contestou acusações relacionadas às emendas e defende a legalidade de sua atuação parlamentar. A investigação busca agora esclarecer a origem e o destino dos recursos que chegaram às empresas ligadas ao grupo, especialmente durante o período de produção de “Dark Horse”.
A Operação Make Up entra em uma nova fase após as 49 buscas autorizadas pelo STF. A Polícia Federal deverá cruzar documentos, contratos, mensagens, notas fiscais, aparelhos eletrônicos e movimentações bancárias para verificar se houve desvio de dinheiro público e identificar os possíveis responsáveis.
Até o momento, existem suspeitas consideradas suficientes pela Justiça para autorizar as medidas cautelares. Busca e apreensão não representam condenação. Caberá à investigação mostrar se os serviços foram efetivamente prestados, quem se beneficiou dos pagamentos e até onde chegam as pegadas deixadas pelo dinheiro público.
















