O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou nesta quarta-feira, 5 de agosto, em Brasília, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente em sua chapa. A escolha reúne dois integrantes do PL e coloca segurança pública, combate à corrupção e defesa dos aposentados no centro do discurso eleitoral.

O anúncio ocorreu no último dia reservado pelo calendário eleitoral para a realização das convenções partidárias. A chapa ainda precisa ter o pedido de registro apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral até as 19h de 15 de agosto, quando a Justiça Eleitoral passará a analisar a documentação e as condições de elegibilidade dos candidatos. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Flávio Bolsonaro afirmou que aguardava havia bastante tempo pelo momento de apresentar o nome do deputado alagoano. Segundo o senador, a escolha foi mantida sob reserva durante as negociações políticas que antecederam a formação da chapa.
“Eu estava ansioso por esse dia. Guardei seu nome a sete chaves no meu pensamento, no meu coração e nas minhas orações. Muito obrigado por ter aceitado esse convite e esse desafio”, declarou.
A indicação consolida uma chapa pura, formada por integrantes do mesmo partido. A decisão veio após legendas de centro e de direita optarem por não integrar formalmente a candidatura presidencial do PL, reduzindo as possibilidades de uma composição com outra sigla.
Natural de Maceió, Alfredo Gaspar de Mendonça Neto tem 55 anos e exerce mandato de deputado federal desde 2023. Ele foi eleito pelo União Brasil e se filiou ao PL em 2026. Antes de chegar à Câmara, construiu carreira no Ministério Público de Alagoas e comandou a Secretaria de Segurança Pública do estado.
Gaspar ocupou por dois biênios o cargo de procurador-geral de Justiça de Alagoas, entre 2017 e 2020. Também passou duas vezes pela Secretaria de Segurança Pública, experiência usada pela campanha para reforçar sua associação com o enfrentamento ao crime organizado e à violência.
A escolha do vice costuma parecer uma decisão distante da vida comum, quase um acerto feito entre paredes fechadas em Brasília. Só que ela ajuda a revelar quais temas a campanha pretende colocar na vitrine, onde buscará votos e que setores tentará representar.
No caso de Alfredo Gaspar, o PL aposta numa combinação clara: segurança pública, discurso anticorrupção, ligação com o Nordeste e atuação parlamentar relacionada às fraudes contra aposentados e pensionistas.
Flávio afirmou que o país “precisa de um vice que ande de cabeça erguida” e usou o anúncio para atacar adversários políticos. A fala sobre uma suposta “volta à cena do crime” faz parte da retórica eleitoral do senador e não deve ser confundida com uma conclusão judicial sobre os concorrentes.
Também há um movimento regional. Gaspar é alagoano, tem atuação política em Maceió e havia lançado sua candidatura ao Senado pelo estado um dia antes de ser escolhido para a chapa presidencial. Ao apresentá-lo, Flávio classificou o Nordeste como “a porta para o crescimento do Brasil” e defendeu investimentos em energia, tecnologia, inteligência artificial, logística, mineração e agricultura.
O que mais chama atenção, numa leitura jornalística, é como uma escolha costurada na capital chega rapidamente à mesa de casa. Segurança, aposentadoria, emprego e desenvolvimento regional não são palavras abstratas pra quem enfrenta fila em posto público, desconto indevido no benefício ou medo de voltar pra casa à noite.
Em sua primeira manifestação após o anúncio, Alfredo Gaspar afirmou que atuará com lealdade ao candidato do PL e prometeu enfrentar corrupção e crime organizado. Também ressaltou sua origem nordestina e se apresentou como uma pessoa simples, com trajetória marcada pelo trabalho.
“Cheguei aqui de cabeça erguida para dizer que, ao seu lado, marcharei para a gente transformar esse Brasil num local justo e decente”, declarou o deputado.
Flávio Bolsonaro destacou ainda a atuação de Gaspar como relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou descontos não autorizados em benefícios do INSS. O relatório apresentado pelo deputado tinha mais de 4 mil páginas e propunha o indiciamento de 216 pessoas, entre dirigentes de associações, empresários, agentes públicos e políticos.
Esse ponto, porém, exige contexto. O parecer de Gaspar foi rejeitado por 19 votos a 12, e a CPMI terminou em março de 2026 sem aprovar um relatório final. Cópias do documento rejeitado foram encaminhadas a órgãos de investigação, mas os pedidos de indiciamento formulados pelo relator não equivalem a condenações judiciais.
Mesmo assim, a exposição alcançada durante a comissão deu ao deputado projeção nacional e criou uma ligação direta entre seu nome e a pauta dos aposentados. Flávio explorou essa imagem durante o anúncio.
“O Brasil conheceu Alfredo Gaspar por sua defesa dos aposentados do nosso país”, disse o senador, classificando o parlamentar como uma das principais vozes políticas sobre o tema.
A escolha também foi interpretada por analistas como uma tentativa de reforçar duas áreas sensíveis para o eleitorado conservador: segurança pública e combate à corrupção. Ao mesmo tempo, mantém a candidatura concentrada dentro do PL, sem produzir a ampliação partidária que uma aliança externa poderia oferecer.
Alfredo Gaspar chega à chapa com um currículo que conversa diretamente com a mensagem escolhida pela campanha. Ministério Público, Secretaria de Segurança, Câmara dos Deputados e CPMI do INSS formam uma sequência fácil de apresentar ao eleitor. Em campanha, clareza de personagem conta muito.
Mas currículo não funciona sozinho. O desafio será transformar essa experiência em propostas concretas, com metas, orçamento e explicação sobre o que cabe ao governo federal. Falar em endurecimento penal rende aplauso rápido. Explicar como União, estados e municípios vão dividir inteligência, recursos e responsabilidades dá mais trabalho, mas é aí que a política pública começa de verdade.
A atuação na CPMI também será usada como cartão de visitas. Só que a campanha precisará conviver com um dado incontornável: o relatório apresentado por Gaspar não foi aprovado. Ele ganhou visibilidade, reuniu milhares de páginas e propôs centenas de indiciamentos, mas o resultado político da comissão foi um encerramento sem relatório final.
Isso não apaga o trabalho feito, nem autoriza transformar investigação em condenação antecipada. Num país acostumado a ver suspeita virar sentença no palanque e absolvição virar detalhe de rodapé, separar essas coisas é obrigação básica.
A origem nordestina do vice acrescenta outro elemento à estratégia. Escolher um nome de Alagoas representa um gesto simbólico para uma região decisiva, mas símbolo precisa vir acompanhado de compromisso verificável. O Nordeste não cabe apenas em discurso sobre sol, energia e potencial agrícola. Tem estrada esburacada, jovem procurando emprego, agricultor dependente de crédito, cidade crescendo sem saneamento e família fazendo conta no fim do mês.
No fim das contas, a indicação mostra a direção escolhida pelo PL: uma campanha mais fechada em sua própria estrutura, com forte ênfase em segurança, corrupção e previdência. Caberá aos eleitores examinar se o discurso apresentado corresponde ao histórico dos candidatos e, principalmente, às propostas registradas para governar o país.
A eleição ainda está começando. Entre o anúncio no palco e a vida do lado de fora, existe um Brasil inteiro cobrando resposta, não apenas palavra de ordem.














