
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de um inquérito para investigar a possível participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em irregularidades relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O procedimento tramita no STF como Petição 16.369 e permanece sob sigilo. A investigação foi autorizada em 22 de julho de 2026, mas sua existência ganhou repercussão pública nesta sexta-feira, 11 de setembro, após reportagens revelarem detalhes das peças encaminhadas ao Supremo.
A apuração envolve recursos ligados ao Banco Master e a Daniel Vorcaro, então controlador da instituição financeira. A Polícia Federal investiga se valores destinados à produção cinematográfica passaram pelo fundo norte-americano Havengate Development Fund e se houve alguma contrapartida relacionada à atuação parlamentar de Flávio Bolsonaro.
Segundo as informações disponíveis, o procedimento começou com uma representação apresentada pela Polícia Federal em 8 de julho. A corporação pediu autorização para apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados às movimentações financeiras.
A representação teria reunido mensagens, encontros, ligações telefônicas e remessas ao fundo Havengate. Entre os pontos analisados está a possível participação de Flávio Bolsonaro na busca de recursos para o filme junto a Vorcaro.
Em 21 de julho, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se favoravelmente ao aprofundamento das investigações. De acordo com reportagens que tiveram acesso ao documento, Gonet apontou a existência de “indícios consistentes” e solicitou diligências para esclarecer se o financiamento poderia estar ligado a alguma contrapartida envolvendo a atividade parlamentar do senador.
No dia seguinte, André Mendonça acolheu o pedido e autorizou a abertura do inquérito. A Polícia Federal formalizou a investigação em 23 de julho. As informações sobre a sequência das decisões foram divulgadas por Folha de S.Paulo, UOL e ICL Notícias.
A abertura da investigação não significa que os crimes tenham sido comprovados nem representa uma condenação. O objetivo do inquérito é recolher elementos para confirmar ou afastar as suspeitas apresentadas pela Polícia Federal e consideradas relevantes pela Procuradoria-Geral da República e pelo relator.
Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade. O senador afirma que os recursos empregados na produção de “Dark Horse” são privados e que o financiamento ocorreu de maneira regular.
Em uma agenda recente em Juiz de Fora, Minas Gerais, o candidato à Presidência afirmou que ele e seus aliados receberiam uma “terceira facada”. A expressão foi usada como metáfora política, em referência ao atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 2018 e à condenação do ex-presidente.
Após a realização da Operação Make Up, Flávio publicou um vídeo afirmando que “a terceira facada chegou” e associou as diligências da Polícia Federal a uma tentativa de interferência nas eleições. Essa é a interpretação política apresentada pelo candidato e não uma motivação comprovada da investigação.
A cronologia mostra que o inquérito relacionado ao Banco Master foi solicitado pela Polícia Federal em 8 de julho e autorizado por Mendonça no dia 22 daquele mês, semanas antes da declaração feita pelo candidato em Minas Gerais. Já a Operação Make Up decorre de outro processo e tem como foco principal o deputado Mário Frias e entidades ligadas a emendas parlamentares.
Até esta sexta-feira, a representação completa da Polícia Federal, o parecer integral da PGR e a decisão de André Mendonça não estavam disponíveis para consulta pública ou download no portal do STF.
Também não foi localizado comunicado específico da Polícia Federal com a íntegra das informações sobre esse inquérito. Por isso, os detalhes conhecidos até agora vêm de reportagens que afirmam ter tido acesso às peças sigilosas.
A retirada de sigilo determinada sobre parte dos procedimentos relacionados ao Banco Master não alcançou a Petição 16.369. Segundo o ICL Notícias, o inquérito sobre o financiamento de “Dark Horse” continua protegido por segredo de Justiça.
A manutenção do sigilo limita o acesso público aos fundamentos completos da decisão, às provas reunidas e à extensão exata das diligências autorizadas. Também exige cautela na divulgação de informações parciais, principalmente por se tratar de uma investigação em andamento.
Investigação não é a Operação Make Up
O inquérito conduzido por André Mendonça não deve ser confundido com a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino na Petição 16.669.
Embora os dois procedimentos tenham conexões com pessoas e empresas relacionadas à produção de “Dark Horse”, eles investigam fatos e fontes de recursos diferentes.
A Petição 16.369, sob responsabilidade de Mendonça, concentra-se principalmente no Banco Master, em Daniel Vorcaro, nas remessas internacionais ao fundo Havengate e na possível participação de Flávio Bolsonaro.
Já a Petição 16.669, relatada por Dino, apura suspeitas de desvio de emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP) ao Instituto Conhecer Brasil e possíveis repasses a empresas ligadas à produção do filme.
Na Operação Make Up, realizada em 10 de setembro, a Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão. Flávio Bolsonaro não é investigado nesse procedimento específico, conforme mostrou a Folha de S.Paulo.
A separação entre os processos é fundamental para evitar a mistura de acusações, investigados e fontes de financiamento. A decisão de Dino não é o documento que fundamentou o inquérito autorizado por Mendonça.
No caso sob responsabilidade de André Mendonça, a Polícia Federal terá de esclarecer a origem dos valores, o caminho percorrido pelo dinheiro e se o financiamento do filme esteve associado a alguma vantagem indevida ou contrapartida política. Até que a apuração seja concluída, permanecem válidas a presunção de inocência e a necessidade de tratar as suspeitas como fatos ainda não comprovados.
















