O debate sobre a revisão da reforma previdenciária

Por Marcelo oXarope
11/09/2023

Publicado em

oxarope01noticia

A Constituição está sujeita a reformas.

 Em 1988, quando a Constituição foi promulgada, o mundo já tinha iniciado a temporada das reformas previdenciárias. Então, praticamente, nossa Constituição ingressa em época na qual a concepção sobre previdência, sobre seguridade social, se encontrava em plena transformação.

É um contexto reformador do Estado Social, ou do Estado do Bem-Estar, cuja crise fora apontada por  Pierre Rosanvallon (historiador francês, economista e cientista político).

Aliás, vamos contextualizar o tema.

A Organização Internacional do Trabalho, prudentemente editou as chamadas Normas Mínimas de Seguridade Social. É a Convenção nº 102, de 1952, que o Brasil adotou. A Convenção nº 102 cria um critério, uma padronização, das prestações dentro de certa razoabilidade. É o que hoje se poderia chamar & lt; /span>de o mínimo existencial. É o que a Previdência Social básica deve suportar do ponto de vista financeiro.

O modelo idealizado pela Assembleia Nacional Constituinte está sendo, com as reformas, ajustado para padrões de sustentabilidade. Portanto, o que se constata, na etapa de reformas iniciada em 1998, é a progressiva restrição de direitos sociais.

A Emenda Constitucional nº 20, de 1998, é restritiva de direitos. Mas essa Emenda não cumpriu o seu principal escopo: a redução das assimetrias entre o regime geral e os regimes próprios.

Ocorre que há um abismo entre o regime geral e os regimes próprios, que consomem quantidade quase equivalente de recursos. A própria Emenda nº 20 criou, nas regras de transição, o prolongamento indefinido das assimetrias. E foi seguida, nesse particular, pelas reformas subsequentes. Ocorre que a Reforma se depara com dados objetivos. O primeiro é o da redução da taxa de natalidade.

Hoje a média de reposição da força de trabalho é de 1,5 de trabalhadores para garantir o sustento dos aposentados e pensionistas. Ocorre que, com essa taxa de reposição, o Sistema não se sustenta. Não haverá força de trabalho suficiente para a manutenção da intergerenacionalidade.

O sistema foi pensado com a seguinte modelagem: a geração presente deve sustentar a geração pretérita, a geração futura sustentará a geração presente. Outro dado objetivo é o do aumento da expectativa de vida. Salta de sessenta e dois anos, apurado em 1960, quando foi promulgada a Lei Orgânica da Previdência Social, para setenta e quatro anos nos dias de hoje. Uma sobrevida de doze anos a mais.

Quanto custarão esses doze anos a mais?

E a discussão de hoje, 2023, é a da desoneração da folha. Vale dizer, redução da arrecadação.

E o cálculo atuarial, que conta com aquela remuneração, que conta com aquela contribuição sobre a folha? Será que está sendo devidamente considerado na Reforma Tributária que acaba de ser encaminhada ao Senado Federal?

Insisto na proposta da Norma Mínima. O Estado garante as necessidades básicas. Quanto ao mais, cada qual deve cuidar, seja individualmente, seja em parceria com o empregador, de complementar o básico, conforme o respectivo projeto de vida.

Na primeira divisão da conta, estabelecida pela Constituição de 1934, ficou definida a divisão em três partes iguais: trabalhador, empregador e União. Depois, a divisão deixou de ser igual, a partir de 1946. Em 1988, o constituinte chamou toda a comunidade a contribuir: Estado e sociedade. Mas não se falou na divisão da conta.

É minha proposta: decisão da comunidade a respeito do ajuste dos benefícios, para todos os regimes previdenciários, e decisão a respeito do rateio das contribuições.

Pode ser que, então, a nova Reforma alcance mais ampliado consenso.

Wagner Balera – Professor de Direito Previdenciário PUC-SP titular na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo nos cursos de graduação e pós-graduação em Direito Previdenciário. Livre-docente e doutor em Direito Previdenciário pela mesma Universidade.  Mestre em Direito Tributário. Coordenador da graduação e p&oacute ; ;s-graduação em Direito Previdenciário na PUC/SP. Autor de mais de 50 livros em Direito Previdenciário.

1678540344banner-970x90-bello.png

Mais recentes

Prefeito Robério anuncia chegada da Carreta Oftalmológica do programa Agora Tem Especialistas do Governo Federal em Eunápolis

O Prefeito de Eunápolis, Robério Oliveira, anunciou a chegada da Carreta Oftalmológica do programa federal Agora Tem…

Parada Geral 2026 da Veracel deve gerar cerca de 1.200 empregos temporários e movimentar R$ 8,5 milhões na economia regional

A Parada Geral 2026 da Veracel Celulose, que terá início no dia 26 de janeiro, deve gerar…

Maioria da população da Bahia agora pertence às classes A B e C segundo estudo da FGV

De 2022 a 2024, a Bahia passou de 50,58 por cento para 65,34 por cento de sua…

Prefeitura de Eunápolis reforça atualização da vacinação antes da volta às aulas

Com a proximidade do início do ano letivo, a Prefeitura de Eunápolis, por meio da Secretaria Municipal…

Safra baiana de grãos bate recorde em 2025 com alta de 12,8 por cento mas previsão para 2026 aponta queda

A Bahia fechou 2025 com a maior safra de grãos da sua história. A produção chegou a…

O debate sobre a revisão da reforma previdenciária

Por Marcelo oXarope
11/09/2023 - 19h30 - Atualizado 11 de setembro de 2023

Publicado em

oxarope01noticia

A Constituição está sujeita a reformas.

 Em 1988, quando a Constituição foi promulgada, o mundo já tinha iniciado a temporada das reformas previdenciárias. Então, praticamente, nossa Constituição ingressa em época na qual a concepção sobre previdência, sobre seguridade social, se encontrava em plena transformação.

É um contexto reformador do Estado Social, ou do Estado do Bem-Estar, cuja crise fora apontada por  Pierre Rosanvallon (historiador francês, economista e cientista político).

Aliás, vamos contextualizar o tema.

A Organização Internacional do Trabalho, prudentemente editou as chamadas Normas Mínimas de Seguridade Social. É a Convenção nº 102, de 1952, que o Brasil adotou. A Convenção nº 102 cria um critério, uma padronização, das prestações dentro de certa razoabilidade. É o que hoje se poderia chamar & lt; /span>de o mínimo existencial. É o que a Previdência Social básica deve suportar do ponto de vista financeiro.

O modelo idealizado pela Assembleia Nacional Constituinte está sendo, com as reformas, ajustado para padrões de sustentabilidade. Portanto, o que se constata, na etapa de reformas iniciada em 1998, é a progressiva restrição de direitos sociais.

A Emenda Constitucional nº 20, de 1998, é restritiva de direitos. Mas essa Emenda não cumpriu o seu principal escopo: a redução das assimetrias entre o regime geral e os regimes próprios.

Ocorre que há um abismo entre o regime geral e os regimes próprios, que consomem quantidade quase equivalente de recursos. A própria Emenda nº 20 criou, nas regras de transição, o prolongamento indefinido das assimetrias. E foi seguida, nesse particular, pelas reformas subsequentes. Ocorre que a Reforma se depara com dados objetivos. O primeiro é o da redução da taxa de natalidade.

Hoje a média de reposição da força de trabalho é de 1,5 de trabalhadores para garantir o sustento dos aposentados e pensionistas. Ocorre que, com essa taxa de reposição, o Sistema não se sustenta. Não haverá força de trabalho suficiente para a manutenção da intergerenacionalidade.

O sistema foi pensado com a seguinte modelagem: a geração presente deve sustentar a geração pretérita, a geração futura sustentará a geração presente. Outro dado objetivo é o do aumento da expectativa de vida. Salta de sessenta e dois anos, apurado em 1960, quando foi promulgada a Lei Orgânica da Previdência Social, para setenta e quatro anos nos dias de hoje. Uma sobrevida de doze anos a mais.

Quanto custarão esses doze anos a mais?

E a discussão de hoje, 2023, é a da desoneração da folha. Vale dizer, redução da arrecadação.

E o cálculo atuarial, que conta com aquela remuneração, que conta com aquela contribuição sobre a folha? Será que está sendo devidamente considerado na Reforma Tributária que acaba de ser encaminhada ao Senado Federal?

Insisto na proposta da Norma Mínima. O Estado garante as necessidades básicas. Quanto ao mais, cada qual deve cuidar, seja individualmente, seja em parceria com o empregador, de complementar o básico, conforme o respectivo projeto de vida.

Na primeira divisão da conta, estabelecida pela Constituição de 1934, ficou definida a divisão em três partes iguais: trabalhador, empregador e União. Depois, a divisão deixou de ser igual, a partir de 1946. Em 1988, o constituinte chamou toda a comunidade a contribuir: Estado e sociedade. Mas não se falou na divisão da conta.

É minha proposta: decisão da comunidade a respeito do ajuste dos benefícios, para todos os regimes previdenciários, e decisão a respeito do rateio das contribuições.

Pode ser que, então, a nova Reforma alcance mais ampliado consenso.

Wagner Balera – Professor de Direito Previdenciário PUC-SP titular na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo nos cursos de graduação e pós-graduação em Direito Previdenciário. Livre-docente e doutor em Direito Previdenciário pela mesma Universidade.  Mestre em Direito Tributário. Coordenador da graduação e p&oacute ; ;s-graduação em Direito Previdenciário na PUC/SP. Autor de mais de 50 livros em Direito Previdenciário.

1

Mais recentes

Prefeito Robério anuncia chegada da Carreta Oftalmológica do programa Agora Tem Especialistas do Governo Federal em Eunápolis

O Prefeito de Eunápolis, Robério Oliveira, anunciou a chegada da Carreta Oftalmológica do programa federal Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde. A unidade móvel…

Parada Geral 2026 da Veracel deve gerar cerca de 1.200 empregos temporários e movimentar R$ 8,5 milhões na economia regional

A Parada Geral 2026 da Veracel Celulose, que terá início no dia 26 de janeiro, deve gerar um impacto positivo significativo para a economia do…

Maioria da população da Bahia agora pertence às classes A B e C segundo estudo da FGV

De 2022 a 2024, a Bahia passou de 50,58 por cento para 65,34 por cento de sua população nas classes A, B e C. O…

Prefeitura de Eunápolis reforça atualização da vacinação antes da volta às aulas

Com a proximidade do início do ano letivo, a Prefeitura de Eunápolis, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, orienta pais e responsáveis a atualizarem…

Safra baiana de grãos bate recorde em 2025 com alta de 12,8 por cento mas previsão para 2026 aponta queda

A Bahia fechou 2025 com a maior safra de grãos da sua história. A produção chegou a 12,8 milhões de toneladas. No entanto, o prognóstico…

Globo de Ouro consagra “O Agente Secreto” e abre nova era para o cinema brasileiro

Em uma noite que vai entrar para os livros de história, o Brasil brilhou no palco do Globo de Ouro. “O Agente Secreto”, de Kleber…

Inflação em 2025 atinge menor índice desde 2018 e surpreende mercado

O Brasil registrou em 2025 uma inflação de 4,26%, a menor desde 2018 e a quinta menor desde o Plano Real. O dado, divulgado nesta…

Jerônimo desmonta clichês e redefine segurança pública na Bahia

Veja como o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, apresenta um novo modelo de segurança pública que alia firmeza policial, inteligência e políticas sociais, rompendo estigmas…

Prefeitura de Eunápolis informa que estão abertas as matrículas da rede municipal ensino para 2026

A Prefeitura de Eunápolis, por meio da Secretaria Municipal de Educação (SEDUC), publicou o cronograma oficial de matrículas para o ano letivo de 2026 na…

Neto comemora o aniversário de Ronaldo Carletto e reuniu principais lideranças políticas da Bahia

Neste domingo, 4, o aniversário de Ronaldo Carletto, uma das maiores lideranças políticas da Bahia, foi celebrado com uma grande confraternização que reuniu prefeitos de diversas…

Trump e Venezuela. A operação que reacende o debate sobre poder, petróleo e democracia

A operação militar dos Estados Unidos na Venezuela recolocou a política internacional em clima de alerta. A ação, ordenada por Donald Trump e concluída com…

2025: O ano que recolocou Eunápolis no caminho do

O ano de 2025 marca um divisor de águas na história recente de Eunápolis. Sob a liderança do prefeito Robério Oliveira, a cidade retomou o…

AVISA QUE EU VOU: Prefeitura de Porto Seguro anuncia programação oficial do Carnaval 2026

A Prefeitura de Porto Seguro lançou nesta terça-feira (23/12), a grade de atrações do Carnaval 2026, em coletiva à imprensa na sede da Secretaria de…

Veracel divulga o resultado do seu 1º edital voltado a iniciativas de fomento à literatura infantil 

A Veracel Celulose anuncia os três projetos selecionados no âmbito do 1º Edital de Responsabilidade Socioambiental, iniciativa inédita voltada ao fomento da literatura infantil nos…

PL da Dosimetria acirra clima político e segue para veto de Lula

Aprovado com 48 votos a favor e 25 contrários, o PL da Dosimetria segue para a mesa do presidente Lula, que já anunciou que vetará…

Rolar para cima