O Senado deu mais um passo nesta quarta-feira, 10 de junho de 2026, para atualizar o piso nacional de médicos e cirurgiões-dentistas. A proposta fixa remuneração mínima de R$ 13.662 para jornada de 20 horas semanais, mas ainda precisa passar pela Câmara.

Saulo Cruz/ Agência SenadoFonte: Agência Senado
A Comissão de Assuntos Sociais do Senado confirmou, em turno suplementar, o PL 1.365/2022, que eleva o piso salarial nacional de médicos e cirurgiões-dentistas de R$ 3.636 para R$ 13.662, considerando jornada de 20 horas semanais. A matéria segue para análise da Câmara dos Deputados, salvo se houver recurso para votação no Plenário do Senado.
O projeto modifica regras da Lei 3.999, de 1961, que trata da remuneração mínima dessas categorias. A ficha legislativa do Senado informa que a proposta está em tramitação e tem como ementa a mudança do salário-mínimo profissional de médicos e cirurgiões-dentistas, além da majoração da hora extra e do adicional noturno.

O texto também aumenta de 20% para 50% o adicional por trabalho noturno e horas extras. A remuneração mínima prevista se aplica tanto aos profissionais do setor público quanto aos do setor privado.
A proposta mexe em uma das discussões mais sensíveis da saúde brasileira: valorização profissional e capacidade de financiamento. Para médicos e dentistas, o projeto representa uma tentativa de corrigir a defasagem do piso, que hoje corresponde a três salários mínimos de 2022, conforme entendimento ligado à ADPF 325 no Supremo Tribunal Federal.
Mas há outro lado que precisa ser observado com cuidado. O novo piso teria impacto direto em contratos, folhas de pagamento, concursos públicos, prefeituras, estados, clínicas privadas e serviços de saúde. O texto aprovado prevê que estados e municípios não precisem custear o aumento com recursos próprios, pois os valores seriam financiados pelo Fundo Nacional de Saúde.
Para médicos da rede pública federal, o impacto estimado é de R$ 7,7 bilhões em 2027, sem contar adicional noturno e horas extras. O cálculo foi apresentado pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos em 2024, segundo a Agência Senado.

O relator da proposta na CAS, senador Fernando Dueire, classificou a medida como uma “reparação histórica”. No parecer, ele defendeu que a valorização financeira é uma condição importante para políticas de interiorização de médicos, especialmente em regiões onde a presença desses profissionais ainda é insuficiente.
A senadora Dra. Eudócia também defendeu que o piso atual é insuficiente para a categoria. Já o substitutivo aprovado teve origem em texto apresentado pelo senador Nelsinho Trad na Comissão de Assuntos Econômicos, antes de passar pela CAS.
Além do novo valor salarial, o projeto assegura dez minutos de descanso a cada 90 minutos de trabalho. Também estabelece que a chefia de serviços médicos e odontológicos deverá ser exercida exclusivamente por médicos e cirurgiões-dentistas, respectivamente.
No papel, o debate parece ser apenas sobre salário. Na vida real, ele passa pelo consultório lotado, pela fila no posto de saúde, pelo profissional que acumula plantões e pela cidade pequena que muitas vezes não consegue manter médico ou dentista por muito tempo.
Valorizar quem cuida da saúde da população é uma demanda legítima. Ao mesmo tempo, qualquer piso nacional precisa vir acompanhado de clareza sobre financiamento, fiscalização e capacidade de execução. Sem isso, uma boa intenção pode virar disputa entre governo federal, estados, municípios e prestadores de serviço.
O ponto mais importante agora é acompanhar a tramitação na Câmara. A proposta ainda não virou lei. Ela avançou no Senado, mas depende de novas etapas legislativas. É nesse caminho que o texto será testado politicamente, financeiramente e juridicamente.
O avanço do piso de R$ 13.662 para médicos e cirurgiões-dentistas coloca a valorização profissional no centro da agenda da saúde. A proposta traz aumento salarial, reajuste anual pelo IPCA, adicional maior para trabalho noturno e horas extras, além de regras sobre descanso e chefia de serviços.
A pergunta que fica é prática: como garantir remuneração justa sem comprometer a sustentabilidade dos serviços de saúde? A resposta não virá apenas do discurso. Virá do texto final, da fonte de recursos e da capacidade de fazer a lei funcionar no Brasil real.


















