Inadimplência avança na Argentina e leva milhares às ruas

Dívidas irregulares atingiram 17,5% do crédito destinado às famílias, enquanto sindicatos cobram redução dos juros e um programa de refinanciamento.

Por Murillo Vazquez
21/08/2026

Publicado em

NOTICIA OXAROPE__1_21AGO26

Milhares de pessoas foram às ruas de Buenos Aires na quinta-feira, 20 de agosto, para cobrar medidas contra o avanço do endividamento das famílias argentinas. A mobilização reuniu centrais sindicais, trabalhadores e movimentos sociais em um cenário marcado por crédito caro, perda de renda e dificuldade para pagar despesas básicas.

foto: Juan Mabromata

O problema deixou de se limitar às relações entre bancos e clientes. Em muitos casos, empréstimos, cartões e carteiras digitais passaram a ser usados para comprar alimentos, medicamentos e pagar contas mensais.

O Monitor Mensal de Crédito às Famílias, elaborado pela Universidade Austral e pela consultoria EcoGo com dados do Banco Central argentino, mostra que a inadimplência representava 17,5% do valor emprestado às pessoas físicas em junho. Foi o vigésimo aumento mensal consecutivo e uma alta de 10,5 pontos percentuais em um ano.

Mais de 20 milhões de argentinos possuíam algum tipo de financiamento. Desse universo, 26,1% apresentavam pelo menos uma dívida em situação irregular.

O levantamento também revela que o maior risco está fora dos bancos tradicionais. Os fornecedores não financeiros, como carteiras digitais, plataformas de empréstimos e emissores não bancários de cartões, respondiam por 14,1% do crédito, mas apresentavam inadimplência de 31%. No sistema financeiro formal, o índice calculado pela mesma metodologia era de 15,2%.

Outro levantamento, produzido pela consultoria 1816, apontou uma pequena redução da inadimplência exclusivamente bancária, de 12,8% em maio para 12,7% em junho. Foi a primeira queda depois de 19 meses seguidos de avanço. O resultado, porém, ainda era preliminar e não incluía todo o mercado não bancário. Por isso, não contradiz a piora registrada no indicador consolidado

O custo dos empréstimos ajuda a explicar a dificuldade de pagamento. Segundo o Banco Central da República Argentina, os empréstimos pessoais apresentaram taxa nominal média de 66,6% ao ano em junho. Nos cartões de crédito, a média chegou a 85,2% ao ano.

Esses percentuais não representam necessariamente o custo final da dívida, que pode aumentar com tarifas, seguros, multas e encargos por atraso.

A expansão rápida do crédito facilitou o acesso ao dinheiro, especialmente por meio de aplicativos. Ao mesmo tempo, expôs famílias com renda apertada a contratos que se tornaram difíceis de cumprir.

Quando o salário não cobre as despesas do mês, o cartão paga o supermercado, a carteira digital adianta a conta de luz e o empréstimo pessoal cobre o aluguel. No mês seguinte, as parcelas se acumulam, enquanto os juros aumentam o valor devido.

A Confederação Geral do Trabalho, as duas centrais CTA, organizações da economia popular e movimentos sociais marcharam até o Ministério da Economia. Os manifestantes entregaram um documento com pedidos de atuação do Banco Central sobre as taxas cobradas das pessoas físicas, medidas para pequenas e médias empresas e um programa de refinanciamento vinculado à evolução da renda.

A manifestação ocorreu no mesmo dia em que comerciantes e empresários realizaram outro protesto na Plaza de Mayo. Segundo a agência EFE, milhares de pessoas participaram dos atos realizados na capital argentina.

O Monitor Mensal de Empresas da Fundar aponta que a Argentina perdeu 30.633 empresas registradas entre novembro de 2023 e maio de 2026, redução equivalente a 6% do total. Somente em maio, o saldo foi negativo em 2.371 empresas.

O governo de Javier Milei rejeita a criação de um programa amplo com recursos públicos para assumir dívidas particulares. Questionado sobre o assunto, o presidente classificou a inadimplência como um “problema entre privados”. O ministro da Economia, Luis Caputo, também defendeu negociações diretas entre credores e devedores.

A Argentina já enfrentava inflação elevada, desequilíbrio fiscal e sucessivas crises cambiais antes da posse de Milei. O atual governo conseguiu reduzir a velocidade da inflação e sustenta que o equilíbrio das contas públicas é indispensável para uma recuperação duradoura.

A queda da inflação, porém, não resolve automaticamente a situação de quem perdeu renda, emprego ou capacidade de pagar compromissos assumidos anteriormente. Também não elimina o impacto de juros elevados e do aumento das tarifas sobre o orçamento doméstico.

O risco agora é a formação de um ciclo difícil de interromper. A dívida reduz o consumo, a queda das vendas pressiona as empresas, os negócios cortam vagas e a perda de empregos cria novos inadimplentes.

Contratos de crédito são firmados entre particulares. Mas quando milhões de famílias deixam de pagar, o problema ultrapassa a relação entre credor e devedor e passa a afetar o consumo, o emprego e a atividade econômica.

A inadimplência argentina já chegou a esse ponto. A dívida não está apenas nos registros bancários. Ela entrou no orçamento das famílias e passou a ocupar as ruas.

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Dívidas irregulares atingiram 17,5% do crédito destinado às famílias, enquanto sindicatos cobram redução dos juros e um programa de refinanciamento.

Por Murillo Vazquez
21/08/2026 - 16h21 - Atualizado 21 de agosto de 2026

Publicado em

NOTICIA OXAROPE__1_21AGO26

Milhares de pessoas foram às ruas de Buenos Aires na quinta-feira, 20 de agosto, para cobrar medidas contra o avanço do endividamento das famílias argentinas. A mobilização reuniu centrais sindicais, trabalhadores e movimentos sociais em um cenário marcado por crédito caro, perda de renda e dificuldade para pagar despesas básicas.

foto: Juan Mabromata

O problema deixou de se limitar às relações entre bancos e clientes. Em muitos casos, empréstimos, cartões e carteiras digitais passaram a ser usados para comprar alimentos, medicamentos e pagar contas mensais.

O Monitor Mensal de Crédito às Famílias, elaborado pela Universidade Austral e pela consultoria EcoGo com dados do Banco Central argentino, mostra que a inadimplência representava 17,5% do valor emprestado às pessoas físicas em junho. Foi o vigésimo aumento mensal consecutivo e uma alta de 10,5 pontos percentuais em um ano.

Mais de 20 milhões de argentinos possuíam algum tipo de financiamento. Desse universo, 26,1% apresentavam pelo menos uma dívida em situação irregular.

O levantamento também revela que o maior risco está fora dos bancos tradicionais. Os fornecedores não financeiros, como carteiras digitais, plataformas de empréstimos e emissores não bancários de cartões, respondiam por 14,1% do crédito, mas apresentavam inadimplência de 31%. No sistema financeiro formal, o índice calculado pela mesma metodologia era de 15,2%.

Outro levantamento, produzido pela consultoria 1816, apontou uma pequena redução da inadimplência exclusivamente bancária, de 12,8% em maio para 12,7% em junho. Foi a primeira queda depois de 19 meses seguidos de avanço. O resultado, porém, ainda era preliminar e não incluía todo o mercado não bancário. Por isso, não contradiz a piora registrada no indicador consolidado

O custo dos empréstimos ajuda a explicar a dificuldade de pagamento. Segundo o Banco Central da República Argentina, os empréstimos pessoais apresentaram taxa nominal média de 66,6% ao ano em junho. Nos cartões de crédito, a média chegou a 85,2% ao ano.

Esses percentuais não representam necessariamente o custo final da dívida, que pode aumentar com tarifas, seguros, multas e encargos por atraso.

A expansão rápida do crédito facilitou o acesso ao dinheiro, especialmente por meio de aplicativos. Ao mesmo tempo, expôs famílias com renda apertada a contratos que se tornaram difíceis de cumprir.

Quando o salário não cobre as despesas do mês, o cartão paga o supermercado, a carteira digital adianta a conta de luz e o empréstimo pessoal cobre o aluguel. No mês seguinte, as parcelas se acumulam, enquanto os juros aumentam o valor devido.

A Confederação Geral do Trabalho, as duas centrais CTA, organizações da economia popular e movimentos sociais marcharam até o Ministério da Economia. Os manifestantes entregaram um documento com pedidos de atuação do Banco Central sobre as taxas cobradas das pessoas físicas, medidas para pequenas e médias empresas e um programa de refinanciamento vinculado à evolução da renda.

A manifestação ocorreu no mesmo dia em que comerciantes e empresários realizaram outro protesto na Plaza de Mayo. Segundo a agência EFE, milhares de pessoas participaram dos atos realizados na capital argentina.

O Monitor Mensal de Empresas da Fundar aponta que a Argentina perdeu 30.633 empresas registradas entre novembro de 2023 e maio de 2026, redução equivalente a 6% do total. Somente em maio, o saldo foi negativo em 2.371 empresas.

O governo de Javier Milei rejeita a criação de um programa amplo com recursos públicos para assumir dívidas particulares. Questionado sobre o assunto, o presidente classificou a inadimplência como um “problema entre privados”. O ministro da Economia, Luis Caputo, também defendeu negociações diretas entre credores e devedores.

A Argentina já enfrentava inflação elevada, desequilíbrio fiscal e sucessivas crises cambiais antes da posse de Milei. O atual governo conseguiu reduzir a velocidade da inflação e sustenta que o equilíbrio das contas públicas é indispensável para uma recuperação duradoura.

A queda da inflação, porém, não resolve automaticamente a situação de quem perdeu renda, emprego ou capacidade de pagar compromissos assumidos anteriormente. Também não elimina o impacto de juros elevados e do aumento das tarifas sobre o orçamento doméstico.

O risco agora é a formação de um ciclo difícil de interromper. A dívida reduz o consumo, a queda das vendas pressiona as empresas, os negócios cortam vagas e a perda de empregos cria novos inadimplentes.

Contratos de crédito são firmados entre particulares. Mas quando milhões de famílias deixam de pagar, o problema ultrapassa a relação entre credor e devedor e passa a afetar o consumo, o emprego e a atividade econômica.

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